O modo de vida e subsistência dos humanos mudou radicalmente ao longo dos milénios, mas o propósito de cada uma das suas actividades, em prol das necessidades que satisfaziam, manteve-se em grande parte inalterado até há poucos anos.
Cultivávamos e caçávamos para satisfazer a fome, líamos para ter acesso à informação e saíamos de casa para nos relacionarmos. A tecnologia e o aumento da complexidade da sociedade humana permitem agora a quase completa dissociação entre essa geração de valor e o seu propósito. Com isso, cria-se um desequilíbrio grave na distribuição da riqueza e uma desconexão quase absoluta entre o que cada indivíduo produz e aquilo que pode consumir.
Num mundo de recursos limitados, de pretensões ilimitadas e totalmente conectado, é inevitável que, de uma forma ou de outra, a esmagadora maioria das pessoas recorra a sucedâneos de experiências de vida para se manter a par da sua “corrida” aspiracional. Uma corrida onde a pirâmide de Maslow é construída com blocos virtuais que não a sustentam convenientemente; uma busca da felicidade remendada por sucedâneos tecnológicos, simulações e projecções de algo que parece cada vez mais real, sem o ser. Um conjunto de “atalhos” que, no final, apenas representam um desvio do caminho efectivo da vida real.
Vivemos experiências de grande escala, delegadas pelo que vemos e imaginamos dos outros, sem nos apercebermos de como isso põe em risco a nossa própria vivência daquilo que efectivamente poderíamos viver. Procrastinamos numa segurança que não é real e trocamos momentos de pequenas felicidades reais por pretensões sobre uma felicidade suprema homogeneizada.
Adormecemos a nossa vivência real para participar em sonhos lúcidos colectivos, originados em realidades manipuladas ou totalmente geradas por modelos que superam qualquer teste de Turing. Chegamos ao momento na história em que a relva digital começa a parecer mais verde que a real. É um momento sinistro da humanidade, onde consideramos que crescemos para lá da “idade dos porquês”. Confiamos em respostas de máquinas que geram raciocínios com a aparente força de toda a sabedoria humana, enquanto nos focamos em actividades repetitivas tornadas cativantes por estímulos quase pavlovianos.
Aceitar substitutos para o nosso pensamento crítico e para verdadeiros relacionamentos empáticos limita o nosso sentido de responsabilidade e honestidade, criando um vazio sobre tudo o que nos torna humanos. Precisamos de reafirmar os nossos valores e procurar experiências na primeira pessoa — não em tudo o que o mundo tem para oferecer, mas naquele caminho que, em plena consciência, decidimos tomar no lugar do condutor das nossas vidas.