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OpiniãoPraia das Maçãs

O país real

E se, no passado, ‘ferramentas standard’ eram as do Office, hoje já não o são. E as necessidades, daqui a vinte anos, não passarão de certeza absoluta por um package de escritório. Teremos exércitos de pessoas formadas na óptica do utilizador? Duvido.

Pedro Aniceto
Publicado em 29 de Setembro, 2024
Tempo de leitura: 3 min
Hacker
Racool_studio/Freepik

Tendo inúmeros amigos e conhecidos no universo tecnológico, a discussão amigável é bastante comum, sobretudo à volta da indústria e da inovação. Mas, talvez, eu não seja o nerd típico que se centra neste assunto – as minhas preocupações estão mais perto da base da pirâmide de conhecimento que, propriamente, do topo. Faz muito tempo que deixei de acreditar no ‘não se deixa ninguém para trás’: é inevitável que, em matéria de ensino, se deixe alguém para trás. A estratificação da sociedade assim o dita (mas, piedosamente, quem toma decisões faz-nos crer que não é verdade que isso aconteça). Ficará sempre alguém para trás. E refiro-me à literacia tecnológica. Conheço bem o edifício educativo português.

Apesar de nos cantarem odes fantásticas relativamente à educação, em si mesma, ou da área tecnológica, tenho imensas evidências sobre alguns falhanços de excelentes intenções. A começar pelos próprios agentes de formação, os professores. Sei bem que não é possível (nem nunca será), começar uma geração de formadores do zero absoluto. Durante anos foi, até, penoso para uma enormíssima quantidade deles “mergulhar” na tecnologia, por duas razões: não tinham quem os formasse, o que fez com que muitos tivessem enveredado pela via autodidata; e (bravo!) muitos deles não quiseram soçobrar a gerações de alunos que positivamente os conseguiam “esmagar” com toda a prática obtida em plataformas mais ou menos emergentes e até no próprio mercado de consolas.

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Mas isto são os professores que vão sendo substituídos, à medida que se vão aposentando, por colegas mais apetrechados nesta área específica do saber. E os alunos? Também vão sendo substituídos nos degraus da escadaria lectiva, mas partem mais ou menos de um zero absoluto (e, aqui, a diferença faz-se no que se aprende no seio familiar e depende da tecnologia de que dispõem). Mas será que estamos a formar pessoas que serão tecnologicamente aptas? As minhas incursões no país real mostram uma nação a várias velocidades. Aquilo que temo é que se esteja a considerar ‘tecnologicamente apto’ tornar alguém autónomo e auto-suficiente com meia dúzia de ferramentas standard. E se, no passado, ‘ferramentas standard’ eram as do Office, hoje já não o são. E as necessidades, daqui a vinte anos, não passarão de certeza absoluta por um package de escritório. Teremos exércitos de pessoas formadas na óptica do utilizador? Duvido.

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Etiquetas:educaçãoinovaçãoOpiniãotecnologia
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