Qualquer espectáculo ou evento tem como propósito proporcionar algum tipo de experiência ao seu público. Mas o que acontece quando o “público” deixa de se concentrar na experiência do espectáculo para se concentrar na criação do seu próprio conteúdo? Estamos perante uma espécie de versão distorcida da “internet morta”, onde a experiência deixou de ser algo que as pessoas vivem para se tornar algo que precisam de provar que viveram.
Reacções exageradas caracterizam um público cujo papel já não é o de quem desfruta do momento, mas o de quem o reporta, tentando, a todo o custo, ser o protagonista. Espectáculos, monumentos, museus e até restaurantes são agora meros cenários para uma novela da vida real, onde influenciadores mostram a sua melhor versão enquanto uma comunidade de influenciados aspira a repetir a mesma encenação. São experiências que se repetem e recriam até à exaustão, transformadas em sucedâneos formatados para as diferentes redes sociais. Não necessariamente por uma vontade efectiva de viver aquela experiência ou de registar um momento verdadeiramente único, mas, acima de tudo, pela necessidade de conquistar o protagonismo daquele instante ou daquele lugar.
Multidões elevam as mãos não para aplaudir o espectáculo, mas para o registar nos seus smartphones, numa perspectiva em tudo igual à do vizinho do lado e numa qualidade muito inferior à do profissional pago para o fazer no topo de uma grua. O facto de alterarmos o nosso foco para o acto de registar um momento, em detrimento de o viver na sua total intensidade, transforma-nos em agentes que já não sabem de que lado da quarta parede se encontram.
Quem vive assim um momento terá mais dificuldade em recordá-lo mais tarde, até porque a experiência está a ser filtrada pelo visor do smartphone, com um distanciamento e uma motivação distintos. É quase como sair do corpo da experiência para assistir a nós próprios a vivê-la. Num estranho mundo novo, onde os media tradicionais são vistos como lentos, rígidos e ultrapassados, os criadores de conteúdo somos todos nós, competindo pela atenção fugaz de uma audiência anónima que, em alguns casos, nem sequer existe.
