Para o fundador da Suno, «a maioria das pessoas não gosta do processo de fazer música». O processo não é uma dificuldade para um músico, mas o seu propósito. A Suno é dirigida a quem quer encontrar atalhos para a fama, numa lógica deprimente em que parecer vale mais do que fazer. É ter orgulho na sua ignorância.
Os “artistas” que andam a usar IA para fazer “música” estão felizes porque não precisam de aprender a tocar um instrumento ou a produzir áudio para criar uma canção. Basta assobiar e pedir à IA uma peça ao estilo da ‘Quinta Sinfonia’, de Beethoven. É claro que nunca ouviram música clássica ou sequer a apreciam, mas acham-se uns génios. Não são.
Não estou a falar de quem cria brincadeiras para partilhar com os amigos, mas, sim, de gente que acha que isto é música a sério, sem nunca ter tentado cantar afinado. Malta iludida, como os músicos de garagem que já se achavam estrelas de rock sem terem um ensaio em cima (apanhei muitos destes e, se calhar, são os mesmos).
O que a IA faz é criar uma mediana do conhecimento acumulado, roubado a músicos a sério, nivelado por baixo. Se lhe derem tempo suficiente para fazer os seus cálculos, irá acabar por cuspir uma nota única a 512 Hz ou outra frequência mística durante dezoito minutos. Estamos a assistir à morte das ideias, especialmente das ideias diferentes.
O que é que os músicos que apreciam o processo podem fazer? Serem ferozmente humanos. Tocar com e para pessoas reais. Criar música para destruir a educação da IA. Usar o Yokolizer, um pedal de efeitos que transforma o som de uma guitarra em vocalizações da Yoko Ono. Ok, é fake, mas incorporar um algoritmo numa faixa musical que fosse ingerida por IA e que resultasse num output de coros infernais de Yoko Onos faria do Spotify uma plataforma bem mais interessante que é agora.
E vocês, o que podem fazer? Ir a concertos, deixar de os filmar, estar presentes, comprar t-shirts, discos e crachás aos artistas directamente, descobrir editoras independentes, gostar de música e não de ruído de fundo. E, se filmarem, que seja num concerto da Yoko.
