A relutância da Europa em depender da tecnologia dos Estados Unidos está a crescer de forma acentuada. Um novo estudo promovido pela Proton concluiu que 45% dos consumidores no Reino Unido, França e Alemanha estão dispostos a evitar activamente empresas que guardem as suas informações em infraestruturas de fornecedores norte-americanos.
Os dados indicam que quatro em cada cinco consumidores europeus já consideram a origem da tecnologia como um factor decisivo na hora de comprar um produto ou de estabelecer uma relação comercial com uma marca. Quase metade dos três mil inquiridos justificou esta posição com preocupações crescentes em torno da privacidade e da segurança.
O peso da privacidade e a sombra do Cloud Act
A principal raiz desta desconfiança está ligada ao Cloud Act, uma legislação que permite às autoridades dos Estados Unidos exigir o acesso a dados geridos por empresas tecnológicas americanas, mesmo que esses ficheiros estejam fisicamente guardados em centros de dados fora do país. Embora existam salvaguardas legais, a percepção geral é a de que qualquer informação entregue a uma gigante norte-americana deixa de ser verdadeiramente privada aos olhos da lei europeia.
Esta desconfiança surge numa altura em que o domínio americano tenta manter-se forte a nível global, um esforço visível através do investimento multimilionário em novas infraestruturas de processamento quântico por parte do governo dos EUA. No entanto, para os cidadãos europeus, o foco está nos serviços do dia-a-dia. O estudo detalha as áreas que geram maior apreensão:
- As plataformas de redes sociais lideram as preocupações, a ser apontadas por 48% dos inquiridos como o principal risco para a privacidade pessoal.
- Os serviços de correio electrónico ocupam a segunda posição, com 46% dos utilizadores a expressar receios sobre a leitura indevida de mensagens.
- As aplicações de mensagens instantâneas geram desconfiança em 40% dos participantes, que temem a intercepção de conversas privadas.
- O armazenamento na cloud é um motivo de alerta para 38% das pessoas, que preferem manter os seus ficheiros em servidores estritamente europeus.
- Os browsers fecham o topo das preocupações, com 31% dos europeus a questionar a recolha massiva de dados feita durante a navegação web.
Soberania digital passa a ser prioridade para as empresas
A pressão não vem apenas dos consumidores individuais. Cerca de 65% dos inquiridos defendem que as pequenas e médias empresas europeias devem dar prioridade a ferramentas desenvolvidas localmente em detrimento das alternativas dos EUA. Além disso, 56% consideram que a aposta em infraestruturas locais é hoje muito mais importante do que era há um ano.
A nível governamental, a mudança de paradigma já está a acontecer. Recentemente, os Países Baixos bloquearam a compra da especialista em cloud Solvinity pela empresa norte-americana Kyndryl. A Solvinity suporta o DigiD, a plataforma de autenticação usada pelos cidadãos neerlandeses para aceder a serviços públicos. As autoridades justificaram a decisão com riscos para a segurança nacional, sublinhando a necessidade de proteger dados sensíveis.
A própria União Europeia tem procurado formas de restringir o acesso da Microsoft, Amazon e Google a dados governamentais nas áreas da saúde, finanças e justiça. Enquanto a Europa procura a sua independência, outras potências globais também seguem caminhos próprios para contornar restrições, com fabricantes asiáticas a desenvolverem arquitecturas inovadoras para os seus processadores, provando que o mercado tecnológico está a fragmentar-se.
Uma mudança gradual no mercado
A Proton, uma empresa suíça focada em serviços de privacidade, argumenta que a dependência da tecnologia dos EUA se está a transformar num verdadeiro passivo comercial. Ainda assim, a transição não será imediata. Actualmente, estima-se que 74% das empresas europeias cotadas em bolsa ainda dependam de serviços fornecidos pela Google ou pela Microsoft.
As plataformas norte-americanas continuam profundamente integradas no tecido empresarial europeu e oferecem um nível de eficiência difícil de substituir a curto prazo. Contudo, os números mostram de forma clara que a exigência por maior privacidade já não é apenas uma bandeira de reguladores e activistas, passando a ser uma exigência real do consumidor comum.