Vivemos tempos curiosos. Enquanto os conflitos armados continuam em várias partes do Mundo, cresce um sentimento menos mediático, mas igualmente real: o da insegurança do dia a dia. Não falamos de guerras. Falamos da vulnerabilidade de quem regressa tarde a casa, anda sozinho na rua, usa transportes públicos ou corre ao final do dia com os phones nos ouvidos.
Portugal está longe dos cenários mais violentos, mas basta percorrer as redes sociais ou ouvir relatos de conhecidos para perceber que o tema entrou definitivamente na conversa quotidiana. E quando um problema entra na conversa, não demora a entrar também na App Store. Entre adolescentes, partilhar a localização em tempo real tornou-se tão normal quanto partilhar stories. A própria Uber já permite enviar o seguimento de uma viagem a familiares. Há poucos anos pareceria paranóia. Hoje é apenas prudência digital.
Um dos exemplos mais curiosos vem de Portugal. Julieta Rueff e a empresa FlamAid criaram aquilo a que chamam a “Granada Pacífica”. O dispositivo tem o formato de uma pequena granada e ativa-se puxando uma anilha. Mas em vez de estilhaços, dispara outras coisas: um alarme de 110 decibéis, localização GPS automática e transmissão de áudio e vídeo em direto para contactos de emergência, via app.
A ideia parece saída de um episódio de Black Mirror produzido pela Temu: mas faz todo o sentido. O smartphone deixou de servir apenas para comunicar, fotografar ou pagar. Serve agora também para pedir ajuda antes que algo aconteça.
E não é caso único. A Prosegur integrou na sua app o sistema ContiGo: botão SOS, temporizador de trajetos e monitorização em tempo real em caso de emergência. Um “cheguei bem” automatizado — com inteligência artificial a fazer o trabalho de ansiedade que antes cabia só aos pais.
Um sinal dos tempos. Não o facto de existirem granadas pacíficas, mas elas fazerem todo o sentido.
