É indiscutível que o reaproveitamento das matérias-primas das embalagens de consumo alimentar é essencial para um futuro sustentável. Aceito que um sistema de depósito e reembolso (como o Volta) em Portugal possa ser importante para esse fim. No entanto, lamento que, com tantos bons exemplos de sucesso já implementados noutros países da Europa, não tenhamos usado as fórmulas que comprovadamente funcionam e que privilegiam o consumidor.
Se a base da hierarquia da gestão de resíduos dita que ‘Reduzir e Reutilizar’ vêm antes de ‘Reciclar’, este sistema devia focar-se em embalagens simples e reutilizáveis, em vez de perpetuar a preferência industrial por embalagens de uso único e a consequente destruição e reciclagem das mesmas. Se queremos verdadeiramente pensar num modelo ideal a longo prazo, com o estímulo ao regresso generalizado das garrafas de vidro ou plástico reutilizável (onde a embalagem é lavada e reenchida), pergunto: por que razão, num País com tão grande tradição de vinho e cerveja, as garrafas de vidro ficaram totalmente de fora desta fase inicial do projecto? Preocupa-me também a forma como os consumidores não estão a ser convenientemente protegidos. Para tal, deixo três pequenas sugestões de fácil e rápida implementação:
Transparência de preços: o valor em maior dimensão na etiqueta de preço no escaparate deve ser o total que o cliente vai efectivamente pagar no acto de passar pela caixa, e não uma pequena referência no canto aos ‘mais dez cêntimos’, como infelizmente já está a acontecer em Portugal;
Simplicidade no reembolso: já que o MB Way teve uma implementação de sucesso em Portugal, por que não devolver o depósito aos clientes deste modo, tal como acontece na Suécia (com o sistema local)? Não faz sentido o cliente ter de ir “pedinchar” o seu dinheiro a uma caixa central ou ser obrigado a fazer novas compras no estabelecimento para descontar o talão;
Salvaguarda contra falhas técnicas: tal como acontece na Alemanha, uma embalagem que não possa ser correctamente lida pelas máquinas de recolha deve implicar um sistema manual alternativo de recepção e devolução no balcão da loja, e não a perda do valor para o cliente que pagou o depósito.
Outro ponto-chave que podíamos ter aprendido com a Noruega é o de incutir os custos e benefícios a quem efectivamente vende as bebidas, através de um sistema de impostos ambientais dinâmicos para os produtores: quanto maior for a taxa de reciclagem do país, menos imposto as marcas pagam. Uma política que, por si só, eliminou quase por completo o vidro descartável do mercado de bebidas norueguês.
Em suma, Portugal adoptou algumas ideias válidas de outros países, mas arrancou com um modelo muito tímido e conservador, focado exclusivamente no plástico e metal de uso único, e associado a um valor de depósito baixo para “mitigar o impacto inicial no orçamento das famílias”. Algo que, na realidade, pode ter resultados inversos aos esperados, devido ao baixo estímulo à mudança de hábitos e ao suporte de custos acrescidos para o consumidor na logística inversa. É um sistema curto, que não catalisa mudanças nos produtores e não incentiva ao verdadeiro processo de economia circular.