Uma investigação recente aponta para uma realidade preocupante no que toca à segurança das comunicações. Satélites russos foram identificados como a causa provável de misteriosas falhas de GPS que afectam a Europa e outras regiões do globo. Trata-se de um exemplo raro de interferência humana com origem no espaço, o que levanta questões sobre a possibilidade de esta tecnologia vir a ser usada como uma arma de bloqueio à escala continental no futuro.
O padrão das falhas de sinal
A descoberta surge de um estudo conduzido por Todd Humphreys e Zach Clements, da Universidade do Texas em Austin, em conjunto com Argyris Kriezis, da Universidade de Stanford. De acordo com o site Ars Technica, os investigadores analisaram dados públicos de estações terrestres equipadas com receptores do sistema global de navegação por satélite (GNSS).
Ao analisar a informação, a equipa identificou um padrão de interferência de alta potência. Cada evento dura menos de dez segundos, mas é detectável em simultâneo por estações terrestres espalhadas por toda a Europa, desde a Noruega até Espanha e Polónia, a alcançar ainda a Gronelândia e o Canadá. Entre Janeiro de 2019 e Abril de 2026, os cientistas registaram 75 dias com pelo menos um evento de interferência generalizada a sobrepor-se à banda de frequência GPS L1 (1575,42 megahertz). Esta é a principal banda utilizada para a transmissão de sinais pela constelação de satélites GPS dos Estados Unidos e por sistemas de outros países.
Impacto no dia a dia e nos dispositivos
Estas anomalias ocorrem maioritariamente às terças, quartas e quintas-feiras, durante o horário de expediente europeu. Como a interferência afecta receptores a uma escala continental, os cientistas calcularam que a fonte tem de estar a pelo menos 1200 quilómetros de altitude.
Se estas falhas se tornarem mais frequentes ou intensas, o impacto no quotidiano pode ser significativo. O bloqueio do sinal L1 afecta directamente a navegação civil e os dispositivos inteligentes que dependem de geolocalização precisa.
A necessidade de mais dados
Ao cruzar a informação sobre quais os satélites que se encontravam acima do horizonte durante cada evento de interferência, os investigadores conseguiram restringir a pesquisa a um pequeno grupo de satélites suspeitos. No entanto, a equipa não conseguiu avançar mais na confirmação absoluta. Para provar de forma irrefutável a origem do bloqueio, os cientistas precisam de captar os dados brutos do sinal de rádio da fonte de interferência, algo que os receptores GNSS das estações terrestres não conseguem fornecer por si só.