Quando apenas doze pessoas têm uma riqueza superior à metade da população mais pobre do mundo, fica claro para todos que a desigualdade na distribuição de recursos é um facto incontrolável. Para estes ultrarricos, o controlo do dinheiro e do conhecimento já deixou de ser um problema. O tempo é, para eles, o único recurso difícil de expandir. E se de alguma forma o dinheiro e o conhecimento podem aumentar a esperança de vida, a verdade inegável é que as 24 horas de um dia são iguais para eles e para todos os outros.
Então, como estão estas pessoas a investir na sua esperança de vida? Focando-se em medicinas genómicas, regenerativas e em biohacking de alto desempenho. A inteligência artificial tem, agora, também uma função clara nesse propósito, nomeadamente no que diz respeito à criação de gémeos digitais: um modelo virtual do corpo do indivíduo, onde se testam medicamentos e dietas no “gémeo” digital antes de os aplicar no corpo real para prever reações. Isto cria diagnósticos preditivos, baseados em algoritmos que analisam biomarcadores em exames de sangue e de imagem, capazes de detetar cancros ou doenças cardíacas anos antes de surgirem os primeiros sintomas.
Com esta investigação focada em replicar a fisionomia interna, começa agora também a explorar-se o “gémeo digital” de personalidade. O objectivo é substituir o humano original em tarefas operacionais, criando um agente que pense e aja da mesma forma.
Fala-se que a Meta está a trabalhar na criação de um agente de inteligência artificial treinado com os maneirismos, o tom, as afirmações públicas, os pensamentos e as estratégias do seu CEO. O objetivo seria permitir que um grupo selecionado de funcionários pudesse interagir “directamente” com Mark Zuckerberg e receber um aconselhamento perfeitamente alinhado com a sua visão. Num projecto paralelo, fala-se também de um ‘Agente CEO’ para apoiar o próprio Zuckerberg no seu trabalho diário.
Neste momento, a inteligência artificial alinha-se com o conceito de eterno retorno de Nietzsche: são conceitos que vivem para sempre na repetição da própria existência, que neste caso acontece contida dentro de uma “caixa” de IA que vive todas as possibilidades, assume todas as formas e, ao mesmo tempo, aparentemente, liberta o humano do propósito de viver, ele próprio, com a máxima responsabilidade e intensidade.
Ao contrário do elusivo e almejado Santo Graal da imortalidade física, este caminho leva apenas a mais um modelo ultrapersonalizado de inteligência com “sabor” a real, que não tem necessariamente vantagens face a outro puramente artificial. No fundo, como o sabor artificial de banana, este clone digital não passa de uma imitação sintética, mais um entre muitos conceitos de humanoides procriados pelo poder do dinheiro.