Têm estado deveras acesas as discussões sobre a Apple com amigos e conhecidos. Mantenho algumas tertúlias regulares com utilizadores (excelentes amostras de necessidades e curiosidades por parte de adeptos e não tão adeptos de Mac e derivados) e as conversas têm andado, ultimamente, à volta de preços e faixas de mercado, margens e custos de produção, muitas vezes incendiadas pelos aumentos dos custos energéticos. Há quem argumente que a Apple esteve demasiado tempo ausente da faixa “económica” de hardware computacional (tendo a discordar, esteve bastante tempo dedicada a ganhar bom dinheiro noutras áreas não menos computacionais). «Porque a Apple, como qualquer outro construtor, não faz produtos baratos porque não quer…», diz-se amiúde. Bom, a afirmação é arriscada e temerária, não é decerto bem assim.
«Como é que justificas que um iPhone custe praticamente o dobro de um Neo se usa bastante menos componentes e, na prática, o mesmo processador?» Há uma imensidade de variantes, mas uma das principais é um processo que a indústria designa por “binning”. E isso do “binning” é exactamente o quê?
Quando a Apple, ou qualquer outro fabricante, projecta os seus chips, todos saem da mesma linha de produção. No entanto, tal como acontece com qualquer processador, pequenas imperfeições surgem durante o fabrico, fazendo com que nem todos os chips sejam igualmente bons em termos de desempenho. Isto parece bastante assustador, mas basta um núcleo não estar em condições para a performance ser completamente diferente.
Depois da produção, esses chips são testados e separados por “bins”, uma divisão por desempenho, consumo de energia e alguns outros factores. Embora partilhem a mesma arquitectura, têm capacidades diferentes. Quando há imperfeições, um ou mais núcleos podem ser desactivados, “despromovendo” o processador a uma divisão inferior, onde será comercializado. Apenas os chips que apresentem imperfeições mais significativas são descartados.
Isto tende a explicar porque é que os processadores empregues em hardware alegadamente “low cost” acabam por reflectir gamas de preços tão díspares em relação a outro hardware onde estejam a ser utilizados, concorrendo para uma economia de fabrico numa altura em que a produção de chips enfrenta problemas de escassez produtiva.
E sim, o seu telefone ou computador de entrada de gama pode ter um Ferrari como motor, mas um motor em que um (ou mais) dos muitos cilindros do bloco não esteja activo e o automóvel não consiga tirar partido de toda a potência projectada. Não é nenhuma desonestidade, é a indústria a funcionar (e é mais ou menos igual para todos).