A União Europeia está a ponderar a construção de dois cabos submarinos para ligar o continente europeu à Ásia através do Árctico. Um dos projectos propõe a passagem pela Passagem do Noroeste, no Canadá, enquanto a segunda opção prevê uma rota a começar na Escandinávia e a atravessar directamente o Pólo Norte. De acordo com uma notícia do site The Verge, a Europa começou a olhar para o norte devido à recente instabilidade no Médio Oriente, região por onde transitam actualmente 90% dos dados de internet entre os dois continentes.
Os perigos das rotas actuais
A crise actual teve início em 2024, quando um míssil Houthi atingiu um navio que navegava no Mar Vermelho, no estreito entre o Iémen e o Jibuti. O ataque deixou a embarcação à deriva e a âncora acabou por cortar três cabos submarinos que passavam por aquele ponto crítico. Foram precisos mais de quatro meses de negociações até que um navio de reparação conseguisse aceder ao local para reparar os danos sem correr o risco de sofrer um ataque.
A situação agravou-se em Setembro de 2025, quando um navio comercial terá arrastado a âncora sobre quatro cabos na mesma zona. Mais uma vez, as equipas de manutenção viram-se obrigadas a negociar durante vários meses para conseguirem efectuar reparações sem impedimentos.
Estes incidentes levaram alguns operadores a procurar o Golfo Pérsico como alternativa. No entanto, o conflito entre os Estados Unidos e o Irão deitou por terra essa opção. A Meta, que se encontrava a instalar uma parte do seu projecto 2Africa quando a campanha de bombardeamentos norte-americana começou, declarou motivo de força maior e adiou os trabalhos. Além disso, uma agência noticiosa ligada à Guarda Revolucionária Iraniana tem vindo a apelar às autoridades do país para aplicarem taxas e controlarem os cabos que passam pelo Estreito de Ormuz.
A segurança destas infraestruturas é uma preocupação crescente a nível global, especialmente quando potências mundiais já testam tecnologias capazes de sabotar ligações submarinas em águas profundas.
O desafio do gelo no projecto Polar Connect
Esta instabilidade regional é o principal motivo que indica a necessidade da União Europeia procurar novas rotas. Neste momento, as alternativas passam pelos Estados Unidos ou pela Rússia. A região polar apresenta-se como a única rota que não atravessa território controlado por outros governos. O projecto proposto, baptizado Polar Connect, tem como objectivo estar operacional até 2030, mas enfrenta obstáculos naturais severos.
O gelo e os icebergs são o maior problema da travessia do Árctico. Estes blocos maciços podem raspar o fundo do mar onde os cabos assentam. Para agravar a situação, não existem navios quebra-gelo preparados para instalar cabos, o que significa que qualquer operação exigiria pelo menos duas embarcações ou a construção de um navio totalmente novo. Os elevados custos de reparação e os longos períodos de inactividade parecem tornar esta rota um desafio económico.
A história mostra que a tarefa não é fácil. A empresa Quintillion tentou ligar a Europa à Ásia através do Alasca, mas o cabo partiu em duas ocasiões devido ao gelo marítimo. O primeiro incidente ocorreu em Junho de 2023, obrigando a empresa a esperar que o gelo derretesse para efectuar as reparações. O segundo corte aconteceu em Janeiro de 2025, e a equipa teve de aguardar oito meses para conseguir aceder à área afectada.
Apesar das dificuldades, a geopolítica global está a empurrar a Europa para este investimento. A União Europeia não é a única a procurar alternativas. No início de 2025, a Meta anunciou o Project Waterworth, que também pretende evitar pontos de estrangulamento como o Médio Oriente e o Estreito de Malaca, com o intuito de criar uma auto-estrada de informação imune a zonas de conflito.