Em meados de Abril, um navio chinês testou com sucesso um novo dispositivo capaz de cortar cabos de dados submarinos a milhares de metros de profundidade. A demonstração ameaça agravar as preocupações de segurança globais, numa altura em que se multiplicam as suspeitas de sabotagem contra infraestruturas de comunicações e energia, desde o Mar Báltico até ao Oceano Pacífico.
De acordo com a publicação South China Morning Post, que cita um artigo do China Science Daily, um órgão oficial gerido pela Academia Chinesa de Ciências, o ensaio ocorreu a 3500 metros de profundidade. A operação esteve a cargo do navio de investigação científica Haiyang Dizhi 2. Esta embarcação integra uma grua de 150 toneladas, um guincho de fibra ótica com dez quilómetros de extensão e uma plataforma de aterragem para helicópteros, tendo já demonstrado capacidade para operar veículos subaquáticos operados remotamente (ROV) em missões anteriores. O artigo oficial chinês refere que este teste no mar conseguiu colmatar a última etapa desde o desenvolvimento de equipamento de mar profundo até à sua aplicação prática na engenharia.
Engenharia de precisão no fundo do oceano
A tecnologia baseia-se num autuador electro-hidráulico especializado, desenhado para operar a profundidades máximas de 4000 metros, atingindo a zona abissal onde reside a maior parte da infra-estrutura crítica de dados do mundo. O design original foi publicado em 2025 na revista científica Mechanical Engineer, com autoria atribuída a investigadores do Centro de Investigação Científica de Navios da China e do Laboratório Estatal de Veículos Tripulados de Mar Profundo.
O sistema inclui uma bomba hidráulica, um motor eléctrico e uma unidade de controlo. Este dispositivo compacto permite que um disco de corte revestido a diamante exerça força suficiente para atravessar cabos submarinos blindados com pesadas camadas de aço, borracha e polímeros.
O grande salto técnico reside na capacidade de o dispositivo manter um elevado rácio de potência e peso, ao mesmo tempo que permanece totalmente selado contra a corrosão e a imensa pressão externa. Por ter um design autónomo e altamente eficiente, a ferramenta dispensa a necessidade de uma frota de apoio à superfície ou de cabos umbilicais complexos. Durante os testes mais recentes, o equipamento conseguiu cortar cabos de alta tensão de forma independente, o que significa que pode ser facilmente montado em pequenos veículos subaquáticos não tripulados (UUV).
Implicações estratégicas e vulnerabilidade global
Embora a China apresente oficialmente esta tecnologia como uma ferramenta para manutenção em águas profundas, resgate e exploração científica, a capacidade de operar a 3500 metros coloca quase toda a infra-estrutura do fundo do Mar do Sul da China ao seu alcance. O tamanho compacto do autuador significa que pode ser lançado a partir de navios de investigação padrão ou até mesmo de embarcações comerciais. Esta característica torna a detecção destas actividades drasticamente mais difícil para as potências marítimas estrangeiras.
A maioria dos cortadores de cabos comerciais destina-se a executar tarefas na plataforma continental, em águas mais rasas, onde as reparações são frequentes. No entanto, os cabos que atravessam o fundo do oceano profundo servem como a espinha dorsal da internet global, suportando as comunicações de governos e grandes empresas. Cortar estas ligações a grandes profundidades torna os esforços de reparação exponencialmente mais difíceis, demorados e dispendiosos. Esta nova funcionalidade militar e civil disponibiliza a Pequim uma nova forma de influência na chamada “zona cinzenta”, onde a ameaça à conectividade pode ser usada como elemento de dissuasão em conflitos geopolíticos.
Um histórico de suspeitas e patentes
Este desenvolvimento é apenas o mais recente de uma série de tecnologias de dupla utilização criadas por organizações militares e civis chinesas ao longo dos anos. O think tank Jamestown Foundation, sediado em Washington, indica que exemplos anteriores incluem patentes registadas por organizações navais do Exército de Libertação Popular para ferramentas de corte e recuperação de cabos. Além disso, a Universidade de Lishui também registou uma patente para um dispositivo de corte que pode ser rebocado por um navio para uso em emergências.
A estreia desta tecnologia optimizada surge numa fase em que um número crescente de navios com bandeira chinesa tem estado envolvido em danos a cabos de dados submarinos e gasodutos em várias partes do mundo. O teste bem-sucedido sublinha uma vulnerabilidade crescente na camada física do mundo digital. Com o direito internacional sobre a protecção de cabos submarinos a permanecer pouco claro, especialmente em águas internacionais, a próxima grande interrupção nas comunicações globais pode não ter origem num ciberataque, mas sim numa lâmina mecânica a operar silenciosamente nas profundezas do oceano.