As autoridades russas continuam a tentar apertar o controlo sobre a Internet no país. Recentemente, o Roskomnadzor (o órgão regulador das comunicações na Rússia) começou a bloquear o acesso ao Telegram. No entanto, os utilizadores continuam a aceder à plataforma através de redes privadas virtuais (VPN). Agora, o Kremlin tenta censurar também estas ferramentas, mas esta abordagem em camadas acabou a prejudicar serviços digitais essenciais a nível interno.
De acordo com Pavel Durov, director executivo do Telegram, os esforços crescentes do governo russo para controlar a Internet global estão a causar problemas generalizados aos cidadãos. O empresário confirmou que a sua aplicação está banida no país, mas indica que mais de 50 milhões de russos continuam a utilizá-la diariamente com recurso a VPN.
O colapso das plataformas financeiras
As autoridades de Moscovo passam anos a tentar controlar e bloquear estas plataformas de anonimato, refere Durov. Contudo, as tentativas mais recentes para restringir o tráfego encriptado e os protocolos de túnel levaram a falhas generalizadas nas aplicações bancárias. Durante o fim-de-semana passado, o dinheiro físico passou a ser o único método de pagamento fiável em grande parte do território russo.
Uma notícia da Bloomberg, que cita fontes anónimas, avança que a repressão às VPN desencadeou problemas significativos de conectividade para as plataformas dos bancos. O sistema de filtragem do Roskomnadzor ficou sobrecarregado, o que causou problemas de fiabilidade e de estabilidade de rede em toda a Internet russa.
A infra-estrutura tecnológica do país demonstrou não estar preparada para suportar o peso das novas regras de filtragem. Muitas empresas viram-se incapazes de executar tarefas financeiras básicas, o que paralisou o comércio local e obrigou os cidadãos a recorrerem exclusivamente a notas e moedas para as suas compras diárias.
A transição para uma aplicação estatal
A Rússia tenta agora empurrar os seus cidadãos para uma super-aplicação nacional chamada Max. Esta plataforma foi desenhada para disponibilizar acesso a redes sociais e a serviços de pagamento móvel, de forma muito semelhante ao funcionamento do WeChat (Weixin) na China. As autoridades de Pequim têm acesso irrestrito a todo o tráfego no Weixin, e o Kremlin parece ter o objectivo de alcançar o mesmo nível de controlo com a aplicação Max.
A mais recente tentativa da Rússia para bloquear o Telegram atraiu críticas de soldados, de bloggers pró-Putin e de apoiantes da guerra contra a Ucrânia. Apesar dos problemas pessoais de Durov com a justiça internacional, o Telegram continua a ser amplamente utilizado como uma plataforma de suporte nas linhas da frente do conflito. O fundador da aplicação argumentou que restringir o acesso dos cidadãos é uma tarefa inútil e destinada ao fracasso, seja no Irão ou na Rússia.
Os internautas recorrem cada vez mais a redes virtuais para contornar a censura estatal, mas estas ferramentas trazem os seus próprios riscos. Para além das preocupações com a vigilância governamental, a segurança dos dados também é um factor crítico, tal como se verificou recentemente quando uma conhecida rede privada virtual foi apanhada a desviar conversas de inteligência artificial de milhões de utilizadores. Um grupo de representantes democratas nos Estados Unidos também notou que o uso destas ferramentas pode expor os cidadãos a uma vigilância sem restrições, o que constitui uma violação grave dos direitos civis e digitais em qualquer parte do mundo.