A marca Xbox atravessa aquele que poderá ser o momento mais crítico e transformador da sua história. Numa alteração que apanhou a indústria de surpresa, a Microsoft anunciou uma reestruturação profunda na liderança da sua divisão de videojogos, assinalada pela saída de figuras históricas e pela ascensão de executivos focados em Inteligência Artificial. Para Seamus Blackley, um dos criadores da Xbox original, estas mudanças não são apenas burocráticas, mas sim o início de um processo de “cuidados paliativos” para uma marca que a Microsoft pretende, gradualmente, descontinuar na sua forma tradicional.
Um terramoto na estrutura directiva
A notícia da reforma de Phil Spencer, o rosto da Xbox durante a última década, serviu de catalisador para uma vaga de incerteza. Spencer, que permanecerá como consultor até ao verão, será substituído por Asha Sharma, que assume o cargo de CEO da Microsoft Gaming. A surpresa foi redobrada com a saída de Sarah Bond, até então presidente da Xbox e apontada por muitos como a sucessora natural de Spencer.
A nomeação de Sharma é o ponto que mais discórdia gera entre os entusiastas e analistas. Com um currículo profundamente ligado à estratégia de IA da Microsoft, tendo liderado o portefólio de produtos CoreAI e impulsionado o GitHub Copilot, a nova líder não possui experiência prévia no sector do entretenimento interactivo. Esta lacuna de conhecimento especializado levou Seamus Blackley a lançar um aviso: a Xbox está a ser “posta a dormir” para dar lugar a uma visão onde a tecnologia de IA precede a criatividade artística.
O aviso do criador original
Em entrevista ao portal GamesBeat, Blackley não poupou críticas à nova direcção estratégica de Satya Nadella, CEO da Microsoft. Segundo o engenheiro que convenceu a gigante tecnológica a entrar no mercado das consolas em 1999, a marca Xbox está a passar por um processo de encerramento gradual ou “sunset”. Blackley compara o papel de Asha Sharma ao de uma médica de cuidados paliativos, cuja missão é “fazer a Xbox morrer devagar e confortavelmente”.
O argumento de Blackley assenta na premissa de que a Microsoft se tornou uma empresa obcecada pela IA, ao ponto de ignorar as particularidades do modelo de negócio dos videojogos. Ao contrário da Apple ou da Netflix, que gerem modelos baseados em autores e conteúdo original, a Microsoft parece agora ver os jogos como um problema abstracto que a IA pode resolver. Para o fundador, colocar alguém que não vive a cultura dos jogos a liderar a divisão é um sinal claro de que o objectivo já não é vencer a Sony ou a Nintendo, mas sim integrar a marca num ecossistema automatizado.
Inteligência Artificial no centro da estratégia
A resistência da comunidade de jogadores a esta mudança é visível nas redes sociais. Recentemente, Asha Sharma partilhou o seu Gamertag, revelando uma pontuação de 10.860 pontos conquistada em apenas um mês. Para os críticos, este é um esforço artificial para criar uma ligação com uma base de utilizadores que valoriza a autenticidade. Há quem acuse a executiva de utilizar bots de IA para interagir com os seguidores, embora Sharma tenha rejeitado tais alegações.
A nova CEO prometeu que não irá permitir a proliferação de “lixo de IA sem alma” nos jogos da Xbox, mas sublinhou que esta tecnologia continuará a ser uma parte integrante do futuro da marca. Esta visão alinha-se com os investimentos massivos da Microsoft, que já ultrapassam muitos milhares de milhões de dólares em infra-estrutura de IA. Contudo, o mercado financeiro tem demonstrado cepticismo. Em 2026, as grandes tecnológicas perderam uma fatia considerável da sua capitalização devido às dúvidas sobre a rentabilidade real destes investimentos, com a Microsoft a ser uma das mais afectadas.
O futuro do hardware e do software
Apesar do cenário pessimista traçado por Blackley, a Microsoft mantém os planos para lançar uma nova consola, possivelmente em 2027. No entanto, os rumores sugerem que o próximo hardware poderá assemelhar-se mais a um PC de gaming optimizado para Windows do que a uma consola tradicional com exclusivos de peso. A estratégia multiplataforma, que já levou títulos da Xbox para a PlayStation e Nintendo Switch, reforça a ideia de que o hardware deixou de ser a prioridade central.
Matt Booty, agora promovido a Director de Conteúdos, terá a difícil tarefa de equilibrar a eficiência prometida pela IA com a necessidade de manter a qualidade artística dos estúdios da Activision Blizzard e Bethesda. O desafio é hercúleo: provar que a Xbox pode sobreviver como uma marca de conteúdo num mundo onde a Microsoft parece querer que tudo seja gerido por algoritmos. Se a previsão de Blackley se confirmar, estamos a assistir ao fim de uma era e ao nascimento de algo que, embora possa manter o nome Xbox, terá muito pouco em comum com a máquina que revolucionou o mercado no início do milénio.