A corretora de criptomoedas Binance sofreu o maior roubo de activos digitais da história, com perdas estimadas em $6,36 mil milhões (cerca de 5,72 mil milhões de euros). O ataque informático, ocorrido a 29 de Outubro, resultou no esvaziamento rápido de múltiplas carteiras virtuais ligadas à Internet. A dimensão deste desvio supera os recordes do sector, eclipsando o ataque de $1,5 mil milhões (cerca de 1,35 mil milhões de euros) que atingiu a corretora Bybit no ano passado. A empresa suspendeu imediatamente os levantamentos nas suas plataformas para conter os danos, embora tenha assegurado que os depósitos continuam a funcionar com normalidade.
Uma execução técnica em múltiplas redes
A investigação inicial apontou para o comprometimento do computador portátil de um engenheiro de operações, mas rapidamente se percebeu que a falha de segurança era mais profunda. Os invasores prepararam a operação com 36 horas de antecedência, através de pequenos levantamentos na plataforma Tornado Cash para testar o código malicioso. O roubo principal começou na rede XRP Ledger e, em cerca de 20 minutos, alastrou-se a dez cadeias de blocos diferentes, como detalha o CyberSecurityNews. A sofisticação do ataque ficou evidente na rede Ethereum, onde os piratas exploraram o mecanismo de delegação EIP-7702.
Esta funcionalidade permite que uma carteira autorize um contrato inteligente a controlar o seu comportamento. Os atacantes submeteram 50 autorizações assinadas pela própria carteira da Binance, direccionando os fundos para um contrato de varrimento controlado pelos criminosos. Ao preparar múltiplas assinaturas, os invasores aumentaram a probabilidade de uma delas corresponder ao contador actual da carteira no momento exacto da execução. Apenas três minutos após a correspondência bem-sucedida, uma única transferência desviou milhares de moedas, evidenciando o comprometimento grave da infra-estrutura de assinaturas da empresa.
Congelamento de activos e promessas de reembolso
Perante a magnitude do desvio, a comunidade das criptomoedas reagiu com extrema rapidez para mitigar o impacto. Entidades emissoras de moedas estáveis agiram em bloco para colocar a carteira principal do atacante numa lista negra. As empresas Circle e Tether congelaram centenas de milhões de dólares nas suas redes, bloqueando o acesso a uma fatia significativa do saque, de acordo com o TechCrunch. No total, as acções de emergência destas redes imobilizaram aproximadamente $2,7 mil milhões (cerca de 2,43 mil milhões de euros), impedindo os criminosos de movimentar estes fundos específicos.
Apesar da gravidade, a Binance garantiu a segurança do capital dos clientes. Changpeng Zhao, fundador e maior accionista da empresa, utilizou as redes sociais para afirmar que todos os fundos dos utilizadores serão totalmente cobertos. A plataforma comprometeu-se a utilizar o seu Fundo de Activos Seguros para Utilizadores, bem como reservas próprias, para colmatar as perdas. Contudo, as quantias roubadas em criptomoedas puras representam um desafio muito maior para qualquer tentativa de recuperação.
A sombra da Coreia do Norte
A análise forense não demorou a identificar os prováveis culpados deste roubo histórico. A empresa de segurança TRM Labs atribuiu o ataque ao TraderTraitor, uma unidade de piratas informáticos patrocinada pela Coreia do Norte, suportando esta conclusão em informações rigorosas recolhidas dentro e fora da rede, tal como salienta o Tom’s Hardware. Este mesmo grupo já tinha sido responsabilizado pelo ataque à Bybit em 2025, demonstrando um padrão contínuo de ataques direccionados a grandes plataformas financeiras.
O detalhe dos montantes desviados ilustra a escala massiva da operação. Os registos preliminares indicam a extracção de $1,57 mil milhões (cerca de 1,41 mil milhões de euros) em Tether, seguidos por 1,45 mil milhões de dólares (cerca de 1,30 mil milhões de euros) em Bitcoin e centenas de milhões noutras moedas. Os atacantes já começaram a branquear parte dos fundos não congelados, convertendo milhões de moedas estáveis em Ethereum através de contratos de negociação automatizados. A complexidade deste esquema reforça a sofisticação da operação, enquanto as autoridades continuam a monitorizar os movimentos para rastrear o capital desaparecido.
