O Telegram é frequentemente utilizado para facilitar actividades ilegais. Embora grande parte desta acção ocorra fora do controlo da plataforma, a partilha de filmes e séries piratas atrai milhões de utilizadores. Para tentar resolver o problema, um grupo de investigadores norte-americanos decidiu mapear este ecossistema e criar uma solução baseada em Inteligência Artificial, segundo o site TorrentFreak.
Um ecossistema de milhares de milhões de visualizações
Especialistas da Universidade do Estado do Louisiana e da Universidade do Texas em Arlington analisaram mais de mil canais. Através de um modelo de linguagem de grande escala a correr localmente, a equipa conseguiu identificar mais de 19 mil títulos pirateados. O estudo revela que a pirataria não é uma actividade marginal na aplicação, mas sim um fenómeno de massas.
Os conteúdos japoneses, especialmente anime da Toei Company, lideram as preferências, seguidos por produções da Netflix e da Warner Bros. No total, as publicações ilegais acumularam 4,85 mil milhões de visualizações. Os investigadores estimam que isto represente perdas na ordem dos 17,49 mil milhões de dólares para as empresas de entretenimento.
Resiliência contra bloqueios e tácticas de sobrevivência
A investigação mostra que os canais de pirataria utilizam técnicas complexas de distribuição. Cerca de 94% dos grupos mapeados estavam ligados a pelo menos um outro canal, a formar uma rede difícil de detectar através de pesquisas tradicionais. O sistema está desenhado para resistir a tentativas de encerramento, a redireccionar os utilizadores através de cadeias de canais intermédios e bots automatizados.
A maioria dos links aponta para plataformas de alojamento externo, como o TeraBox ou o GoFile. Além de vídeos, estes grupos partilham credenciais roubadas de serviços de streaming e tutoriais de VPN para contornar bloqueios. Muitas vezes, estes espaços sem moderação expõem os utilizadores a perigos digitais, onde a falta de controlo facilita esquemas fraudulentos e o roubo de dados.
Anti-RIP traz esperança no combate à pirataria
Para ir além da simples observação, a equipa desenvolveu o “Anti-RIP”, uma ferramenta de Inteligência Artificial capaz de detectar pirataria em tempo real. O objectivo passa por identificar as comunidades antes que estas cresçam. Entre Fevereiro e Abril de 2026, o sistema analisou mais de 249 mil canais recém-descobertos, a sinalizar centenas de grupos ilegais com menos de cinco dias de existência. Em vez de enviar apenas links soltos, os investigadores compilaram relatórios detalhados e enviaram os dados para o departamento de abusos do Telegram e para os detentores de direitos de autor.
Os resultados foram imediatos. Num período de dois meses, a ferramenta facilitou o encerramento de 524 canais de pirataria e 71 bots. A pressão sobre as plataformas de comunicação para limparem os seus ecossistemas continua a aumentar a nível global. Recorde-se que governos de todo o mundo estão a apertar o cerco às tecnológicas para proteger os cidadãos, como se viu recentemente quando o governo britânico decidiu impor restrições ao acesso de jovens às redes sociais.
Curiosamente, a monetização destes canais piratas é frequentemente feita através de publicidade a esquemas duvidosos ou casas de apostas ilegais. Desta forma, os utilizadores que procuram entretenimento gratuito acabam muitas vezes aliciados por ofertas enganosas.
