Chegar à centésima crónica nesta revista é um marco que me orgulha e, ao mesmo tempo, me obriga a fazer algo raro: parar, respirar e olhar para trás. Quando escrevi as primeiras linhas para a PCGuia, o panorama digital parecia seguir uma evolução mais linear e previsível. Discutíamos a maturidade dos smartphones, a migração para a nuvem e a promessa de uma conectividade ainda mais global. Hoje, cem colunas depois, percebo que não estávamos apenas a assistir a uma mudança de ciclo, mas sim a acumular a energia cinética que desaguou na actual disrupção exponencial.
Escrever sobre o futuro da tecnologia é o equivalente a jogar uma partida de xadrez em que o tabuleiro não para de crescer e as regras mudam a cada jogada.
O que antes nos parecia ficção científica remota, como o advento da inteligência artificial generativa ou a iminência do “Dia Quântico”, passou a ser uma urgência de pensamento do presente. Passámos a debater, perante algo que já está a acontecer diante dos nossos olhos, a ética de agentes autónomos, gémeos digitais e a fusão entre biologia e silício. O ritmo da inovação acelerou de tal forma que a própria noção de “futuro” encurtou drasticamente. O amanhã já não se mede em décadas, mas em meses. O que verdadeiramente me fascina na retrospectiva destas últimas 99 colunas é o impacto invisível que estas ferramentas têm na nossa condição humana, na economia e na estrutura da sociedade. A tecnologia, no fundo, é um espelho amplificado das nossas maiores virtudes e dos nossos piores receios.
A PCGuia tem sido o espaço ideal para este exercício de reflexão partilhada. Ao leitor que me acompanha desde os primeiros textos, ou ao que chega agora a tempo deste número redondo, bem como a toda a equipa editorial, deixo o meu mais sincero obrigado. O privilégio de pensar o futuro convosco, edição após edição, é o que dá sentido ao nosso ‘Conceito Humanoide’.
Olhando em frente, uma coisa é certa: os próximos anos vão exigir de nós mais espírito crítico do que nunca. E, apesar de valorizar profundamente a força e a relevância da palavra escrita na única revista de tecnologia impressa em Portugal, não sei se a crónica número duzentos será lida num ecrã, num holograma ou consumida directamente através de um assistente neuronal. Mas sei que, enquanto houver tecnologia para desbravar e mentes curiosas para a questionar, cá estarei. Venham mais cem.
