Há dez dias, a Anthropic estava a celebrar o lançamento do seu modelo de Inteligência Artificial mais avançado. Hoje, quase ninguém o pode usar. A administração Trump ordenou que a empresa restringisse o acesso aos modelos Fable 5 e Mythos 5 apenas a cidadãos norte-americanos. Sem capacidade para verificar a nacionalidade à escala global, a única opção da Anthropic foi um encerramento total, a cortar o acesso a aliados, investigadores e aos próprios funcionários estrangeiros com um aviso prévio de apenas 90 minutos.
Um ataque medido em horas
O motivo desta decisão drástica parece estar ligado a um testemunho no Senado dos Estados Unidos. De acordo com o site TechSpot, o senador Mark Warner revelou que o General Joshua Rudd, líder da NSA e do US Cyber Command, lhe comunicou directamente que o modelo Mythos da Anthropic conseguiu penetrar em quase todos os sistemas classificados da NSA durante um exercício autorizado de segurança. O tempo necessário para esta invasão não foi medido em semanas ou dias, mas sim em horas.
Se esta alegação se confirmar, representa um momento histórico, em que um modelo comercial de IA compromete de forma autónoma algumas das infraestruturas mais protegidas do mundo.
O que é realmente o Mythos
Quando a Anthropic anunciou o Mythos em Abril, a mensagem foi clara. O modelo era demasiado capaz de encontrar vulnerabilidades de segurança para ser lançado publicamente. Em vez disso, a empresa abriu o acesso através do Project Glasswing, um programa controlado para cerca de 200 parceiros avaliados, a incluir empresas como a Amazon, Apple, Google, Microsoft e Nvidia.
O Mythos já tinha descoberto milhares de vulnerabilidades no mundo real, a identificar uma falha com 27 anos no OpenBSD e 271 novos erros no browser Firefox 150 da Mozilla.
O Fable 5, lançado para o público a 9 de Junho, utiliza o mesmo modelo base, mas adiciona classificadores de segurança. A posição da Anthropic era que estas barreiras tornavam o Fable 5 seguro para uso geral. Contudo, o governo norte-americano entende que a separação entre os dois modelos não está suficientemente protegida.
Política e segurança de mãos dadas
O gatilho oficial para a proibição foi uma forma de contornar as restrições do sistema. O governo notificou a Anthropic de que existia um método para ultrapassar os classificadores de segurança do Fable 5, o que poderia desbloquear as suas capacidades cibernéticas mais sensíveis. A denúncia inicial foi feita ao Departamento de Comércio pela Amazon, que é simultaneamente uma grande investidora na Anthropic e uma concorrente no espaço da IA.
A Anthropic defendeu-se, a afirmar que a vulnerabilidade era limitada e que falhas semelhantes existem noutros modelos disponíveis ao público, como o GPT-5.5 da OpenAI, que não estão sujeitos a controlos de exportação comparáveis.
O cenário político torna a decisão ainda mais complexa. Em Fevereiro, a administração Trump já tinha ordenado que todas as agências federais parassem de usar os modelos da Anthropic, depois de a empresa recusar termos de contrato que permitiriam o uso da sua IA em sistemas de armas autónomas e vigilância interna em massa. O Pentágono chegou mesmo a designar a Anthropic como um “risco para a cadeia de abastecimento”.