Na semana em que se assinala o World Quantum Day, realizou-se a primeira videochamada segura em Portugal a utilizar encriptação quântica. A demonstração decorreu em Lisboa, a ligar três localizações distintas através da rede de fibra ótica da Vodafone Portugal. Os pontos de contacto incluíram o Vodafone Innovation Hub, um centro de dados da mesma operadora e o Laboratório de Tecnologias Quânticas (QuTe Lab) do Instituto Superior Técnico, em parceria com o Portuguese Quantum Institute (PQI).
Para a concretização deste teste, as entidades recorreram a uma solução comercial desenvolvida pela empresa italiana ThinkQuantum. O objectivo principal passou por demonstrar a capacidade da infra-estrutura de rede actual para suportar tecnologias emergentes na área da cibersegurança, a preparar o terreno para futuras exigências de protecção de dados.
O desafio da nova geração de computação
A evolução tecnológica traz novos riscos para a segurança da informação. Espera-se que o desenvolvimento da computação quântica venha a comprometer os métodos criptográficos tradicionais que actualmente protegem as comunicações digitais. À medida que o hardware avança — como se verifica com o facto de o novo computador Helios da Quantinuum ser um grande passo para a adoção comercial da computação quântica —, torna-se imperativo adoptar novas abordagens de defesa.
Ao contrário das abordagens criptográficas baseadas em algoritmos matemáticos, que podem tornar-se vulneráveis a ataques futuros, a tecnologia testada em Lisboa baseia-se em princípios da física. A transmissão segura foi viabilizada através de uma funcionalidade designada Quantum Key Distribution (QKD). Este método assenta na distribuição de chaves verdadeiramente aleatórias, geradas de acordo com as leis da mecânica quântica, a impossibilitar a intercepção sem que as partes envolvidas detectem a intrusão de imediato.
Arquitectura da rede e implementação técnica
A demonstração técnica utilizou a plataforma QuKy da ThinkQuantum. Esta solução foi concebida para se integrar de forma transparente com a infra-estrutura de rede já existente. O ensaio operou numa topologia de três nós, em que a comutação ótica no nó central, localizado no Instituto Superior Técnico, simplificou a arquitectura. Esta configuração ajudou a reduzir o número de equipamentos necessários, a garantir um desenho mais eficiente e escalável para futuras implementações em redes reais.
Ao viabilizar este ensaio num ambiente real, a operadora de telecomunicações indica que a sua rede de fibra ótica dedicada está preparada para a integração de soluções avançadas de segurança. A iniciativa foi desenvolvida no âmbito do Vodafone Innovation Hub, o centro de colaboração da empresa, a reforçar o apoio ao ambiente de desenvolvimento tecnológico e a colaboração com instituições académicas para a resolução de problemas complexos.
Aplicações práticas em sectores críticos
A ThinkQuantum forneceu a versão comercial da sua solução para esta demonstração, a evidenciar o potencial de aplicação prática a curto e médio prazo. De acordo com a empresa italiana, as tecnologias QKD vão permitir comunicações seguras para entidades públicas e privadas ao longo de redes óticas de transporte. A urgência na transição para estes novos modelos de segurança é evidente no mercado global, onde empresas de consumo também já se movimentam, como demonstra o caso da NordVPN que adota encriptação pós-quântica em todas as suas aplicações.
As tecnologias resistentes à computação quântica são essenciais para proteger comunicações em sectores onde a segurança dos dados a longo prazo é crítica. Áreas como a saúde, a banca, a energia, as telecomunicações e as infraestruturas públicas podem beneficiar da QKD. As aplicações reais englobam a protecção de dados sensíveis em trânsito, o estabelecimento de ligações seguras entre centros de dados e locais operacionais, e a criação de infraestruturas de rede mais resilientes.
Paulino Corrêa, Chief Network Officer da Vodafone Portugal, refere que esta demonstração inédita, tanto pela tecnologia envolvida como pelo número de nós de comunicação, reforça a preparação da infraestrutura da empresa para responder aos desafios tecnológicos dos próximos anos no domínio da cibersegurança.
Por sua vez, Simone Capeleto, CEO da ThinkQuantum, avança que o teste mostra como as tecnologias seguras contra a computação quântica podem ser integradas de forma eficaz em ambientes de rede reais, a consolidar o papel do QKD na evolução das comunicações seguras.
Yasser Omar, professor do Instituto Superior Técnico e presidente do PQI, acrescenta que se trata de uma demonstração histórica no país, a abrir caminho à interligação de comunicações quânticas na rede de fibra ótica existente.