O projecto internacional Xenon conseguiu alcançar, pela «primeira vez», energias de neutrinos tão baixas como 17 keV (quiloeletrões-volt). Até agora, o limite mais baixo na detecção em tempo real de neutrinos solares pertencia à experiência Borexino, com um limiar de 335 keV, quase vinte vezes mais).
Um dos participantes nesta iniciativa foi uma equipa de investigadores do Departamento de Física da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra (FCTUC) coordenada por José Matias Lopes.
Os neutrinos estão entre as partículas «mais abundantes do Universo e atravessam continuamente a Terra», lembra a FCTUC. Segundo José Matias Lopes «milhares de milhões destas partículas atravessam, a cada segundo, cada centímetro quadrado da superfície terrestre e o próprio corpo humano, quase sem interagir com a matéria».
Esta reduzida capacidade de interacção torna os neutrinos «particularmente difíceis de detectar» pelo que, apenas em ocasiões «muito raras» uma destas partículas «colide com a matéria e produz um sinal que pode ser registado por um instrumento». A identificação de eventos tão ténues exige «detectores com níveis muito baixos de radiação de fundo».
Instalada nos Laboratori Nazionali del Gran Sasso, em Itália, a cerca de 1300 metros de profundidade, a experiência Xenon foi originalmente concebida para «investigar matéria escura». A localização subterrânea «ajuda a proteger os detectores da radiação cósmica e de outras interferências capazes de ocultar os sinais procurados pelos cientistas», lembra o investigador.
As novas medições, em conjunto com resultados anteriores, mostram que o sistema «também consegue registar interacções de neutrinos e outros fenómenos ultrarraros». Esta capacidade resulta de «mais de duas décadas de desenvolvimento tecnológico» destinado a «reduzir o ruído dos detectores e a distinguir sinais» que, de outra forma, «passariam despercebidos».
O resultado alarga, assim, a utilização científica da experiência Xenon «além da matéria escura». A capacidade de observar sinais cada vez mais fracos poderá permitir «novos estudos sobre neutrinos e outras partículas fundamentais», embora o projecto «ainda tenha como um dos principais objectivos encontrar provas directas da matéria escura». Os resultados desta experiência podem ser vistos aqui.
