Durante o último ano, o interesse em sistemas de inteligência artificial autónomos cresceu substancialmente, mas a sua actuação esteve quase sempre limitada ao mundo digital, algo que abrange texto, imagens e código dentro de um computador. A Anthropic pretende agora mudar este paradigma ao introduzir o Model Hardware Standard, um conjunto de controladores padronizados concebidos para permitir que os agentes de inteligência artificial comuniquem facilmente com dispositivos físicos e os controlem, segundo avança o site Ars Technica. Esta iniciativa procura transpor as barreiras do software e dar às máquinas a capacidade de interagir directamente com o mundo real.
Numa fase actual de antevisão para investigação, este esforço está a ser direccionado principalmente para ajudar os cientistas a simplificar o árduo processo de criação de integrações de software personalizadas, frequentemente necessárias para colocar diferentes componentes de uma experiência a funcionar em harmonia. O novo padrão fornece uma interface comum e um formato partilhado para a troca de dados entre os equipamentos, para permitir que estes comuniquem através de uma rede sem a necessidade de um programa tradutor específico pelo meio. Esta inovação surge numa altura em que a concorrência aperta e a OpenAI tenta recuperar a sua posição dominante no setor das empresas, a obrigar a Anthropic a diversificar as suas ofertas tecnológicas. Com o sistema padronizado, a empresa estima que o tempo de configuração de experiências complexas possa ser reduzido de semanas ou meses para apenas algumas horas ou minutos.
Inspiração nos laboratórios de neurociência
A ideia para este projecto nasceu da observação directa do trabalho científico no terreno. Num vídeo publicado juntamente com o anúncio, Alek Kemeny, membro da equipa técnica da Anthropic, explicou que a iniciativa foi inspirada pelo trabalho do neurocientista Arco Bast durante uma experiência sobre a formação de memória no cérebro, realizada no campus de investigação HHMI Janelia, na Virgínia. O investigador tinha desenvolvido uma interface própria para coordenar feixes de laser rotativos, microscópios, câmaras e uma miríade de outros componentes através de um sistema comum. Ao presenciar esta engenhosa solução, Kemeny percebeu que o mesmo conceito poderia ser utilizado para colocar a inteligência artificial a executar qualquer experiência científica no mundo.
Embora a linguagem de interface comum não exija obrigatoriamente a utilização de modelos de inteligência artificial, visto que os dispositivos podem ser controlados em tempo real através de linhas de comandos e ficheiros de código, a verdadeira revolução acontece na integração. Ao ligar um sistema compatível com o novo padrão a um modelo através do Model Context Protocol, os cientistas passam a poder interagir com os aparelhos a usar linguagem natural. Esta facilidade de uso assemelha-se à conveniência que a recente ligação do assistente Claude ao serviço de correio eletrónico da Google trouxe aos utilizadores comuns. Além disso, os modelos conseguem raciocinar sobre cada passo de uma experiência, actualizar parâmetros em tempo real e até recuperar de erros de hardware sem intervenção humana. Num ecossistema onde a segurança e a privacidade são cada vez mais debatidas, como demonstra o novo mecanismo de detecção de infrações sem retenção de dados da rival OpenAI, a Anthropic aposta em dar autonomia física aos seus agentes de forma estruturada e controlada.
