Na Accenture, uma das maiores empresas de consultoria do mundo, que supostamente contrata apenas os melhores e mais brilhantes, descobriu-se que o orçamento de tokens de IA estava a ser consumido não pelos programadores, mas pelo pessoal não-técnico. Para quê? Converter PDF em apresentações PowerPoint.
Quem nunca pediu uma foto para usar numa publicação e recebeu um ficheiro Word com uma imagem? Ou um cartaz feito em PowerPoint? Ou um ecrã capturado de um texto para editar? Inicialmente, ria-me e era compreensivo. Para se obter conhecimento, ou se procura aprender ou nos é ensinado. A literacia digital tem sido um campo que se deixou à improvisação, com pessoas muito inteligentes a não conseguirem realizar tarefas consideradas básicas, como reenviar e-mails.
E não é uma questão geracional. Na sua maioria, os alunos universitários são pros nas redes sociais, mas nabos (noobs) em coisas tão simples como fazer tabelas no Google Docs. Mas, com a IA, parecem especialistas em tudo. Oh, a vã ilusão dos tolos!
No artigo ‘The People Who Will Thrive in the AI Age’ (The Atlantic), há uma frase que adoro: «Estamos a entrar num mundo de extrema polarização cognitiva. Algumas pessoas irão usar IA para pensar mais. Outros, para pensar menos».
Reduzir a IA a usos mundanos, como converter ficheiros, é um uso pobre de todo o seu potencial. É um reflexo dos seus utilizadores. E, quando vejo um resultado gerado por IA armado em arte ou criatividade, fico triste pela pessoa que fez o prompt, porque vive na ilusão de que a ideia é a obra. Podem fazer música, poesia e quadros com IA, mas isso não faz deles poetas, músicos ou pintores. Sinaliza-os como incompetentes, no sentido de que não têm as competências para ser o que aspiram a ser.
Mas, numa era em que parecer vale mais que ser, e em que a idiotice parece ser uma força vital para o sucesso, isso não importa nada. Por enquanto. A solução está em usar a IA para aprender a converter PDFs em PowerPoint. É a diferença entre ser uma pessoa inteligente ou apenas mais um incompetente.
