Deveríamos começar a pensar num ícone religioso para o crescimento digital. Uma Nossa Senhora das Dores Digitais (NSDD), invocada em cada projecto de grande dimensão ou carga, em cada ‘isto devia entrar em produção no próximo ano’ que acaba por ser adiado mais um semestre, em desenvolvimentos que até já existem noutros lados, rodados e testados, mas em que alguém (ou comissões de “alguéns”) decide reinventar a roda e armar a via-sacra de tickets, atalhos e reuniões que terminam quase sempre com a frase: ‘Isto precisa de um PDS (ponto de situação)’. Todos os grandes projectos em que se tentou escalar digitalmente conheceram esta, por vezes patética, liturgia, e todos os envolvidos sabem, sem excepção, que certas dores não são necessariamente sinal de que se está a caminho do abismo, mas sim de que, até que enfim, algo está a crescer.
O projecto de correcção digital dos exames do Ensino Secundário, sabemo-lo agora, não correu nada bem; aliás, continua envolto em polémica e problemas, quem sabe até ao momento em que estas linhas estiverem a ser lidas. Mas também não começou ontem, nem anteontem. A fase experimental, que teve como ponto central os exames de Filosofia, decorreu no ano passado e foi nela que Nossa Senhora das Dores Digitais fez a sua primeira aparição. Certo, era uma fase experimental, e é precisamente para isso que estas se levam a efeito: para aprender, para retirar conclusões e gerar mais tickets, mais atalhos, mais reuniões e, hélas, mais pontos de situação.
Mas os caminhos da decisão são um bocado insondáveis. Quase todos os intervenientes que conheço me disseram, na altura, que havia ainda muito caminho para andar, que tinham sido detectados problemas sobre os quais haveria que trabalhar. Aparentemente, sabemos também agora, os responsáveis da fase experimental não foram sequer ouvidos, nem lhes foi pedido um balanço. E estamos a falar das figuras de proa do Júri Nacional de Exames, quer anteriores, quer actuais. Apesar disso, ou mesmo contra isso, o Ministério decidiu avançar com a generalização do uso e da implementação do sistema de correcção digital.
Muitas das queixas que vejo agora relatadas são semelhantes às que escutei na fase experimental (que por vezes acompanhei por mera curiosidade de análise). Ou alguém não recebeu o memo, ou convidaram o Leroy Jenkins para coordenar a continuação do processo. Oremos. À NSDD, claro.
