Como ler mais, deixar maus hábitos, ser mais criativo, mais bonito, mais musculado, mais confiante, menos preguiçoso, menos cansado, fazer 10x, não-sei-quê-maxx, ser madrugador, mais rico, bem-sucedido, amado. Como ser feliz. As redes sociais estão cheias de conselhos destes. E não os deveríamos ouvir.
No final de 2018 decidi mudar o meu estilo de vida: deixei de beber e fumar, comecei a fazer exercício, apostei numa carreira nova, fiz terapia. Procurei informação em sites, artigos e no YouTube, e encontrei ideias preciosas para a reinvenção pessoal.
Descobri filosofias que me eram desconhecidas, práticas reguladoras do corpo e da mente, aprendi com histórias de outros seres humanos cheios de falhas como eu, segui pistas que me levaram a outras eras e locais, que me trouxeram de volta a mim. Sem gurus. Sem cursos. Apenas curiosidade.
Mais de sete anos depois, continuo cheio de problemas (mínimos comparados com a realidade do mundo), mas lido muito melhor com eles (e com os problemas do mundo). Sou feliz comigo mesmo, apesar de ter dias miseráveis como toda a gente. O problema é que o algoritmo desatou a inundar-me com canais e anúncios que vendem o sucesso e a felicidade a quem subscrever o canal/conta deles.
O que vemos online é uma mera ilusão de escolha. É mais o cálculo preciso entre o que procuramos e o que nos podem vender, muitas vezes o que é impossível de comprar.
A máquina de comparação e celebridade imediata que são as redes sociais veio piorar o cenário. Adoro os miúdos de vinte e tal anos a dar conselhos sobre a vida, quando passaram a sua à frente do ecrã. E fazem-no, não por altruísmo, mas porque é um negócio. Eu perdoo, porque já fui novo e estúpido. Agora sou só estúpido, mas aceito que sei muito pouco do que alguma vez poderei saber.
O que sei é que não temos de ser mais, nem menos. Não somos melhores por ir ao ginásio às seis da manhã. Não somos piores por não o fazer. Não ouçam quem vos aponta problemas para vos vender a solução. Desliguem-se e sejam curiosos.
