A experiência da Microsoft para transformar o Xbox Game Pass no equivalente à Netflix para os videojogos parece não estar a funcionar. De acordo com o site TechSpot, o serviço perdeu cerca de quatro milhões de utilizadores, com uma descida dos 34 milhões registados no início de 2024 para os actuais 30 milhões. Este número fica muito aquém das metas internas da gigante tecnológica, que ambicionava chegar aos 77 milhões de membros até Julho de 2026 e aos 100 milhões até 2030.
A Microsoft deixou de fornecer actualizações regulares sobre o total de subscritores, mas este valor ilustra o abrandamento drástico de um serviço que a empresa outrora promoveu como a sua grande bandeira para consolas, computadores e nuvem.
O preço de uma aposta arriscada
A quebra acentuada começou após um aumento de preços focado no conteúdo premium. Em 2025, a Microsoft subiu o valor do Game Pass Ultimate em quase 50 por cento e reestruturou os restantes patamares. A decisão foi vista como o custo necessário para garantir o acesso no primeiro dia aos novos títulos da saga Call of Duty, além dos lançamentos dos estúdios próprios.
No entanto, a estratégia teve o efeito inverso. Matthew Ball, director de estratégia da Xbox, admitiu que as alterações fizeram com que a plataforma perdesse milhões de subscritores em poucos meses. Ficou claro que até os jogadores mais dedicados, que valorizam a flexibilidade da nuvem e os jogos no dia de lançamento, não estavam dispostos a suportar um custo tão elevado. Esta fuga de clientes levou a responsável máxima da divisão a reconhecer o erro e a prometer ajustes no modelo de negócio.
Mudança de rumo e reestruturação
Para tentar estancar a hemorragia, a nova directora executiva da Xbox, Asha Sharma, decidiu implementar várias medidas drásticas para reverter a situação:
- Redução imediata das mensalidades: A Microsoft baixou os preços do Game Pass para tentar recuperar a confiança dos consumidores que abandonaram a plataforma após o aumento abrupto do patamar Ultimate.
- Fim da exclusividade no dia de lançamento: A promessa de colocar os novos Call of Duty no serviço logo no primeiro dia foi abandonada, com estes títulos a chegar ao catálogo apenas cerca de um ano após o lançamento nas lojas.
- Foco na diversidade do catálogo: O objectivo actual passa por devolver o serviço à sua essência original, ao oferecer uma biblioteca vasta em vários dispositivos, onde a inclusão de grandes sucessos serve para atrair e reter jogadores a longo prazo, em vez de depender de um único grande lançamento.
Ainda assim, o impacto financeiro desta quebra foi severo. Num memorando interno recente, Sharma sublinhou que o serviço não cresceu ao ritmo esperado, justificando assim a profunda reestruturação que resultou no despedimento de milhares de trabalhadores na divisão de videojogos.
O debate sobre o modelo de subscrição
Este abrandamento reacende um debate antigo na indústria: será que um modelo de subscrição consegue suportar os custos de desenvolvimento de jogos de grande orçamento? A Sony tem defendido que colocar títulos caros num serviço de subscrição no dia de lançamento destrói o seu valor a longo prazo.
O PlayStation Plus adopta uma abordagem muito mais cautelosa, com foco em rentabilizar jogos mais antigos e preservar as vendas a preço inteiro nos grandes lançamentos. Para a Microsoft, o Game Pass continua a ser o pilar da sua visão para o futuro, mas os recentes cortes e mudanças de estratégia mostram que a tecnologia e a ambição não são suficientes por si só para garantir o sucesso entre os consumidores.
