Depois das previsões sombrias para o mercado dos computadores, os smartphones económicos parecem ser os próximos a sofrer com a escalada de preços dos componentes. De acordo com dados da Omdia, as vendas globais de telemóveis com preços inferiores a 400 dólares (cerca de 370 euros) vão cair 22% este ano. Esta quebra acentuada vai arrastar todo o mercado para um declínio homólogo de 12%.
Margens de lucro esmagadas pelos custos
O problema central reside no aumento contínuo dos preços das memórias DRAM e NAND. Nos equipamentos de gama baixa e média-baixa, as margens de lucro já são tão curtas que não há espaço para manobras financeiras. No primeiro trimestre de 2026, a memória representou quase 60% do custo total de materiais nos smartphones abaixo dos 400 dólares. Nos dispositivos mais baratos, com preços inferiores a 99 dólares, este valor ultrapassou os 64%.
Os fabricantes tentaram absorver este impacto a reduzir custos noutras áreas, como ecrãs, sensores e módulos de radiofrequência. No entanto, esta estratégia tem limites. Os telemóveis mais acessíveis já são desenhados com estruturas de custos extremamente apertadas, o que torna impossível compensar a subida das memórias sem aumentar o preço final para o consumidor ou piorar a qualidade do equipamento.
Marcas fogem do segmento de entrada
Zaker Li, analista principal da Omdia, avisa que a situação vai piorar à medida que os preços das memórias continuarem a subir nos próximos trimestres. Empresas como a Transsion, Oppo, Vivo, Honor e Xiaomi estão a ser forçadas a aumentar significativamente os preços de venda ao público apenas para manter as suas margens de lucro mínimas. Aliás, esta pressão financeira já está a levar algumas gigantes chinesas a abrandar o ritmo de fabrico dos seus terminais.
Como os consumidores que procuram telemóveis baratos valorizam o preço acima de tudo, um aumento de 50 euros num equipamento de 150 euros é suficiente para destruir a procura. Por este motivo, as marcas estão a abandonar gradualmente o segmento de gama baixa este ano e preferem focar-se em modelos mais caros, onde os compradores têm maior poder de compra e estão menos propensos a adiar a aquisição.
Uma crise que afecta toda a indústria
A extinção dos equipamentos económicos não se limita aos telemóveis. A Gartner prevê que a crise de memórias, impulsionada pela inteligência artificial, possa eliminar os computadores abaixo dos 500 euros até 2028. Estima-se que os preços combinados de DRAM e SSD subam 130% até ao final de 2026.
Para tentar contornar a inflação dos componentes tradicionais, a indústria procura alternativas de poupança no fabrico. Rumores recentes indicam que a Apple está a explorar novos métodos de produção para os seus futuros computadores. Em simultâneo, os fabricantes de smartphones enfrentam desafios adicionais de design e engenharia, especialmente agora que a legislação europeia exige componentes de energia facilmente substituíveis, o que encarece ainda mais o desenvolvimento de novos modelos.
