As restrições de idade e as proibições de redes sociais para menores de 16 anos estão a ganhar popularidade em todo o mundo, numa resposta às preocupações crescentes com o conteúdo online considerado prejudicial. Contudo, a eficácia destes métodos de bloqueio levanta sérias dúvidas. Um artigo recente da Internet Matters, uma organização sem fins lucrativos sediada no Reino Unido, que se dedica a ajudar pais, educadores e profissionais a manter as crianças seguras online, indica que a Lei de Segurança Online do Reino Unido tem tido um impacto muito limitado a impedir o acesso de menores a redes sociais e a plataformas para adultos.
Tácticas antigas e novas abordagens
Num inquérito realizado recentemente a 1270 crianças (entre os 9 e os 16 anos) e aos pais, cerca de 32% dos jovens admitiram contornar as verificações de idade. O método clássico de introduzir uma data de nascimento falsa continua a ser o mais comum. No entanto, a lista de truques inclui também a utilização do dispositivo ou das credenciais de acesso de um adulto, a utilização de VPN e o uso do documento de identificação de terceiros.
Passar por análises faciais de estimativa de idade a usar fotografias aleatórias é uma prática menos frequente. Curiosamente, cerca de um sexto dos pais ajudou os filhos a contornar as restrições. De acordo com a publicação, isto acontece porque os adultos confiam nas crianças e compreendem os serviços online a que estas tentam aceder.
Bigodes falsos e personagens de videojogos
Além de usarem rostos de outras pessoas, algumas crianças conseguiram enganar os sistemas com sucesso a mostrar imagens de personagens de videojogos. O caso do Discord é paradigmático. Depois de a plataforma começar a exigir a confirmação da data de nascimento e de a sua base de dados de identificação ter sofrido uma falha de segurança, surgiu uma aplicação que usa modelos 3D para contornar as análises faciais do serviço.
Num dos casos mais insólitos do estudo britânico, um pai apanhou o filho de 12 anos a pintar um bigode falso no rosto. O resultado foi surpreendente, uma vez que o software de estimativa calculou que o jovem tinha 15 anos. Estudos anteriores já referem que, embora os scanners faciais sejam precisos para utilizadores com mais de 18 anos, a sua eficácia desce drasticamente quando analisam rostos de adolescentes.
O impacto das VPN e a privacidade
No ano passado, quando o Reino Unido começou a aplicar restrições de idade em sites para adultos e a Austrália proibiu o acesso de menores às redes sociais, os downloads de VPN dispararam. Muitos jovens acedem a estas plataformas directamente através do browser, onde tentam mascarar a sua localização e identidade. Redes sociais e outras aplicações, como o YouTube, também começaram a exigir verificações para algumas contas. Algumas plataformas optam por não banir os utilizadores com menos de 16 anos de forma definitiva, mas restringem certas funcionalidades, como as transmissões em directo e as mensagens directas.
O incidente com o Discord também justifica os receios em torno da segurança dos dados. Um dos pais inquiridos no estudo mostrou preocupação com a possibilidade de sites fraudulentos recolherem informações privadas das crianças através destes sistemas de verificação.
Entretanto, os reguladores estão a focar as atenções nas VPN, o que tem gerado consequências inesperadas. Legisladores norte-americanos alertaram recentemente que os utilizadores de VPN podem atrair vigilância governamental. O estado do Utah tornou-se o primeiro a aprovar legislação contra estas redes privadas, enquanto a Rússia perturbou inadvertidamente o seu próprio sector bancário ao tentar bloquear o acesso a VPN.