A ideia de que a inteligência artificial vai ditar o fim dos smartphones como os conhecemos tem ganho força, mas a OpenAI parece ter uma visão diferente. A empresa liderada por Sam Altman está a desenvolver o seu próprio telemóvel, um equipamento desenhado de raiz para colocar os agentes de inteligência artificial no centro da experiência de utilização. A notícia é avançada pelo conhecido analista Ming-Chi Kuo, que indica que a criadora do ChatGPT pretende criar um ambiente integrado totalmente novo, capaz de contornar as restrições impostas pelas lojas de aplicações actuais.
Parcerias de peso e calendário de produção
De acordo com as informações partilhadas por Kuo recentemente, a OpenAI não vai entrar nesta aventura sozinha. A empresa está a colaborar com a MediaTek e a Qualcomm para o desenvolvimento de processadores dedicados. Já a montagem e o design do equipamento ficarão a cargo da Luxshare Precision Industry, uma fabricante parceira da Apple que já produz os iPhones.
O calendário aponta para um processo longo. As especificações finais dos chips e a lista definitiva de fornecedores devem ficar fechadas entre o final deste ano e o primeiro trimestre de 2027. A produção em massa, refere o analista, está agendada apenas para 2028. Este horizonte temporal sugere que a OpenAI está a preparar uma mudança profunda na forma como interagimos com a tecnologia móvel, em vez de apenas lançar mais um dispositivo apressado no mercado.
O fim das aplicações e o foco no contexto
O grande diferencial deste smartphone será a ausência de um modelo baseado em aplicações tradicionais. Em vez de abrir um programa específico para cada acção, o utilizador vai interagir directamente com agentes de inteligência artificial. Um conceito partilhado pelo analista mostra um ecrã principal onde os ícones dão lugar a painéis de informação e a processos contínuos geridos pela IA, como a reserva de voos ou a compilação de dados de mercado.
Para executar tarefas de forma eficiente, o telemóvel vai combinar modelos de linguagem de pequena dimensão a correr localmente no dispositivo com modelos mais pesados alojados na cloud. Esta abordagem permite que o assistente virtual tenha uma percepção constante do contexto do utilizador em tempo real, captando dados sobre a localização, a actividade física, as comunicações e o ambiente em redor.
Actualmente, a Apple e a Google controlam o acesso ao sistema operativo e limitam as funcionalidades que as empresas externas podem oferecer. Ao criar o seu próprio hardware, a OpenAI liberta-se destas amarras. Esta visão alinha-se com as previsões de outras figuras da indústria, como Carl Pei, director executivo da Nothing, que afirmou recentemente que as aplicações vão acabar por desaparecer.
Um novo sistema operativo no horizonte
A necessidade de processar tanta informação contextual levanta questões sobre o software base do equipamento. Embora seja provável que a arquitectura assente em Android, uma publicação recente de Sam Altman na rede social X deixou pistas sobre ambições maiores. O director executivo escreveu que este parece ser o momento ideal para repensar seriamente a forma como os sistemas operativos e as interfaces de utilizador são desenhados.
Esta recolha constante de dados contextuais significa também que a OpenAI terá acesso a uma quantidade de informação sobre os hábitos dos utilizadores muito superior àquela que consegue obter através de uma simples aplicação instalada num telemóvel de terceiros. Com o ChatGPT a aproximar-se dos mil milhões de utilizadores semanais, um produto de uso diário pode consolidar a posição da marca no mercado de consumo.
Ambições de hardware e projectos anteriores
Esta nova informação sobre um smartphone contrasta com os rumores que circularam nos últimos meses. Até agora, as atenções estavam viradas para outros formatos. A aposta da OpenAI no desenvolvimento de equipamentos físicos ganhou força com a aquisição da startup de Jony Ive, o antigo responsável de design da Apple, num negócio avaliado em 6,5 mil milhões de dólares em 2025.
Os projectos iniciais desta parceria apontavam para o lançamento de colunas inteligentes, óculos de realidade aumentada, candeeiros conectados e auriculares. Aliás, no início deste ano, Chris Lehane, director de assuntos globais da OpenAI, confirmou que a empresa está no bom caminho para anunciar o seu primeiro produto de hardware na segunda metade de 2026, que muitos analistas acreditam ser um par de auriculares com inteligência artificial integrada.
Resta agora perceber como é que a empresa vai gerir este portefólio e se o smartphone será a peça central de toda esta nova plataforma tecnológica. Até ao momento, a OpenAI não prestou declarações oficiais sobre o desenvolvimento deste telemóvel.