A França está a acelerar os seus planos de independência tecnológica. Numa nota de imprensa oficial divulgada esta semana, a Direcção Interministerial para os Assuntos Digitais (DINUM) do país anunciou a saída do Windows a favor de estações de trabalho a executar o sistema operativo Linux. A notícia, avançada pelo site Tom’s Hardware, sublinha uma mudança profunda nas infraestruturas informáticas do Estado francês, com o objectivo de afastar os interesses comerciais norte-americanos dos computadores governamentais.
Para concretizar esta transição, a DINUM tem o apoio de outras entidades estatais de peso, como a Direcção-Geral das Empresas (DGE), a Agência Nacional de Cibersegurança de França (ANSSI) e a Direcção de Compras do Estado (DAE). É provável que o governo venha a adoptar uma versão de Linux adaptada às necessidades locais para satisfazer o objectivo de migrar para soluções soberanas.
O caminho para a independência tecnológica
A mudança para o Linux é descrita como um de três passos iniciais concretos a que o governo se comprometeu recentemente para reduzir as dependências digitais de França face a fornecedores fora da Europa. O plano final deve ser formalizado no outono. Nessa altura, os responsáveis vão definir exactamente que tipo de estações de trabalho, ferramentas colaborativas, software antivírus, inteligência artificial, bases de dados e equipamentos de rede serão necessários para avançar com a iniciativa.
Enquanto os utilizadores comuns continuam a acompanhar as mudanças no sistema operativo da Microsoft, o Estado francês prefere cortar laços por completo. No campo das aplicações, a França indicou recentemente que já transferiu oitenta mil funcionários do Fundo Nacional de Seguro de Saúde para alternativas de código aberto. Plataformas comerciais como o Microsoft Teams, o Zoom e o Dropbox foram substituídas por novos serviços estatais, nomeadamente o Tchap, o Visio e o FranceTransfert. Este conjunto de ferramentas de produtividade colaborativa foi baptizado La Suite e disponibiliza opções modernas para executar tarefas diárias sem depender de software externo.
Além disso, no mês passado, o governo francês também confirmou a migração da plataforma de dados de saúde para uma solução de confiança até ao final de 2026.
Os motivos por trás da decisão
Os ministros franceses mostram-se muito empenhados em diminuir a dependência de tecnologias controladas por interesses estrangeiros. David Amiel, Ministro da Acção Pública e Contas, escreveu numa declaração oficial que o país tem de se tornar menos dependente de ferramentas americanas e recuperar o controlo do seu destino digital. O governante refere que não é possível aceitar que os dados, as infraestruturas e as decisões estratégicas do Estado dependam de soluções cujas regras, preços, evolução e riscos não são controlados internamente.
Anne Le Hénanff, Ministra Delegada para a Inteligência Artificial e Tecnologia Digital, partilha da mesma visão, ao afirmar que a soberania digital não é uma opção, mas sim uma necessidade estratégica.
As implicações para as empresas de software e serviços do outro lado do Atlântico podem ser significativas. Como membro influente da União Europeia, as decisões de França têm o potencial de exercer uma forte influência sobre outros países do bloco. Se a mudança para o Linux for bem-sucedida, pode inspirar outros departamentos governamentais, organizações parceiras do Estado e até utilizadores individuais a seguir o mesmo caminho, alterando drasticamente o panorama tecnológico europeu nos próximos anos.