Há muito que existe um debate aceso entre os entusiastas de áudio sobre a capacidade de distinguir o som proveniente de cabos caros e opções mais económicas. No entanto, um vídeo publicado recentemente no YouTube vem deitar por terra alguns dos maiores mitos deste segmento. O canal Audio Science Review decidiu colocar frente a frente um cabo RCA de quatro mil dólares e uma alternativa da Amazon Basics que custa apenas sete dólares, a provar que muitos consumidores podem estar a deitar dinheiro à rua.
A notícia, avançada pela publicação TechSpot, destaca a comparação entre os cabos de interligação Kimber KS 1036, considerados de boutique, e um cabo desgastado da Amazon que o apresentador Amir afirma usar há anos sem qualquer problema. Logo no início da análise, a opção mais dispendiosa começou a perder pontos. O autor do vídeo criticou a caixa de transporte desnecessária, questionou a utilidade das ligações RCA com bloqueio e notou que uma peça amovível pode perder-se facilmente, o que tem o potencial de inutilizar o produto. Além disso, a ligação da Kimber revelou-se menos estável ao ser movimentada do que a alternativa incrivelmente barata.
A análise técnica aos componentes
Para tirar todas as teimas, Amir recorreu a um analisador Audio Precision para executar tarefas de medição desenhadas para expor qualquer vantagem real que o cabo da Kimber pudesse oferecer. O resultado foi claro e não deixou margem para dúvidas. Com uma onda sinusoidal de 1 kHz a 4 volts RMS, ambos os cabos mostraram a mesma distorção incrivelmente baixa. A resposta de frequência de 10 Hz a 200 kHz foi efectivamente idêntica, a resposta de fase coincidiu e até os testes de tempo de subida de onda quadrada se sobrepuseram.
O apresentador tentou ainda um teste de esforço digital mais rigoroso ao usar ambos os cabos RCA como ligações S/PDIF coaxiais. O cabo da Amazon chegou a mostrar um aumento minúsculo no jitter, mas apenas na ordem dos picossegundos, apesar de ser mais comprido do que a amostra da Kimber. Na prática, a conclusão foi que ambos se comportaram de forma igual à própria cablagem interna do analisador.
O peso do marketing e da psicologia
Estes resultados tornam o marketing da Kimber muito difícil de justificar. A marca gaba-se de integrar seis condutores de prata puxados através de matrizes revestidas a diamante, além de prometer fundos silenciosos, cores tonais vívidas e a verdadeira alma da actuação. São alegações impressionantes, mas as medições não suportam nenhuma destas promessas.
O ponto mais útil do vídeo acabou por não ser sobre os cabos em si, mas sim sobre os ouvintes. O apresentador admite que, ao trocar de equipamento em situações normais, muitas vezes pensa ouvir graves mais definidos, mais detalhe ou um fundo mais silencioso. Contudo, argumenta que o viés de expectativa e a audição com conhecimento prévio do material são os grandes factores em jogo. Quando se passa a realizar testes cegos, vezes suficientes para eliminar palpites de sorte, essas diferenças desaparecem drasticamente.
É verdade que existem cabos de péssima qualidade no mercado e que algumas opções de topo mal desenhadas podem até introduzir mais ruído. Mas, tal como esta comparação demonstra, assim que se ultrapassa a fasquia muito baixa da competência básica, gastar milhares de euros em interligações analógicas serve mais para financiar embalagens luxuosas do que para alcançar a perfeição sonora.