A tensão entre os Estados Unidos e a União Europeia volta a subir de tom devido às políticas aplicadas às grandes empresas tecnológicas. Donald Trump tem manifestado desagrado ao longo dos anos em relação à quantidade e à dimensão das coimas impostas pelo bloco europeu às firmas norte-americanas. Agora, o embaixador dos Estados Unidos na União Europeia, Andrew Puzder, deixou um aviso claro de que estas penalizações e o excesso de regulação no continente podem afectar a participação europeia na economia da inteligência artificial.
Numa entrevista à CNBC, Andrew Puzder foi peremptório. O diplomata afirmou que, se a União Europeia pretende participar na economia da inteligência artificial, vai necessitar de centros de dados, de informação e de acesso ao hardware norte-americano. Na mesma intervenção, sublinhou que não é possível legislar em excesso, alterar as regras do jogo constantemente e atingir as empresas com multas avultadas.
O embaixador acrescentou ainda que são precisamente estas empresas que podem disponibilizar a infra-estrutura necessária. Segundo Puzder, se a Europa afastar estas firmas do continente através da regulação, vai acabar por ficar de fora do sector da inteligência artificial.
O histórico de tensões e a defesa europeia
Esta posição não representa uma novidade absoluta. Em Agosto de 2025, o Presidente Donald Trump prometeu aplicar tarifas adicionais e restrições de exportação a todos os países cujas leis, impostos e regulações visassem as empresas dos Estados Unidos. Na altura, o líder norte-americano frisou que a América e as suas tecnológicas deixaram de ser o “capacho” ou o “mealheiro” do resto do mundo.
Do lado europeu, a comissária da concorrência, Teresa Ribera, tem defendido a regulação aplicada às gigantes tecnológicas. No ano passado, a responsável enfatizou que as entidades a operar no continente têm de seguir as leis locais e respeitar os valores europeus.
No entanto, ao longo dos últimos doze meses, a União Europeia deu bastantes argumentos a Washington. A penalização mais mediática surgiu em Setembro de 2025, quando a Comissão Europeia multou a Google em 2,95 mil milhões de euros devido ao seu negócio de tecnologia de publicidade. A empresa foi acusada de favorecer os próprios serviços e de prejudicar rivais, anunciantes e editores.
Uma sucessão de coimas milionárias
Poucos meses antes, em Abril de 2025, a Comissão também aplicou uma coima de 500 milhões de euros à Apple, ao abrigo da Lei dos Mercados Digitais (DMA), devido às regras da App Store. A Meta não escapou e sofreu uma penalização de 200 milhões de euros, também sob a alçada da DMA, relacionada com o seu modelo de consentimento de dados.
Os reguladores nacionais também começaram a actuar de forma independente. A CNIL, em França, multou a Google em 325 milhões de euros em Setembro de 2025 por causa de anúncios a surgir nas caixas de correio do Gmail e falhas no consentimento de cookies. Já em Dezembro de 2025, a Comissão Europeia multou a rede social X em 120 milhões de euros, ao abrigo da Lei dos Serviços Digitais (DSA), por problemas que incluíam a verificação enganosa de contas e falhas na transparência publicitária.
Enquanto as autoridades europeias se desdobram em investigações para garantir a segurança no espaço digital, que vão desde a protecção dos utilizadores até ao desmantelamento de redes de fraude na dark web, a lista de alvos continua a crescer. Esta semana, a Comissão anunciou a abertura de um processo formal para investigar se a plataforma Snapchat cumpre a Lei dos Serviços Digitais no que diz respeito à segurança infantil online, o que pode resultar em mais uma multa pesada para uma firma dos Estados Unidos.