Um conceito que outrora parecia ficção científica está agora a ser reconhecido como fundamental para a sobrevivência do mundo digital. A Association for Computing Machinery atribuiu o Prémio Turing de 2025 a Charles Bennett e Gilles Brassard. O trabalho de quatro décadas destes investigadores na área da mecânica quântica ajudou a estabelecer as bases para o que pode vir a ser o principal método de protecção de informação sensível na era da computação avançada. A dupla vai partilhar o prémio de um milhão de dólares pelo trabalho pioneiro em criptografia quântica e na ciência da informação quântica em geral. Segundo o site TechSpot, o artigo publicado por ambos em 1984, que introduziu o protocolo BB84, reimaginou a forma como a informação podia ser mantida em segredo. Na altura, as ideias pareciam demasiado esotéricas para uso prático, mas hoje são consideradas essenciais para proteger dados contra as próximas grandes ameaças informáticas.
O encontro improvável no mar das Caraíbas
Charles Bennett, actualmente com 82 anos e investigador no laboratório da IBM em Nova Iorque, e Gilles Brassard, de 70 anos e professor na Universidade de Montreal, conheceram-se por acaso em 1979. Durante uma conferência em San Juan, no Porto Rico, os dois foram nadar no Oceano Atlântico. Foi nesse momento de pausa que Bennett iniciou uma conversa sobre uma ideia improvável: criar uma nota de banco impossível de falsificar, fundamentada nas leis da mecânica quântica. Brassard descreveu mais tarde a sugestão como chocante, mas este momento tornou-se a semente de uma colaboração de décadas. A trabalhar entre Nova Iorque e Montreal, os cientistas aplicaram primeiro o conceito a fichas de metro. Um estudo de 1983 demonstrou que estas fichas, desenhadas com propriedades quânticas, seriam impossíveis de contrafazer, mesmo que o hardware utilizado para as verificar fosse roubado. Deste exercício teórico nasceram os princípios da criptografia quântica.
A inviolabilidade garantida pela física
No documento de 1984, Bennett e Brassard descreveram como os fotões podiam ser utilizados para criar chaves de encriptação capazes de revelar qualquer tentativa de intercepção. Como a medição de um fotão altera as suas propriedades, um potencial espião deixaria um rasto inconfundível. Cinco anos mais tarde, a dupla demonstrou o conceito de forma experimental, a provar que a comunicação segura podia ser garantida pelas leis da física. Em declarações ao The New York Times, Prineha Narang, professora de ciências físicas e engenharia na Universidade da Califórnia, explicou que os investigadores lançaram uma forma totalmente nova de pensar a encriptação. A especialista sublinha que as leis fundamentais da física podem tornar os sistemas impossíveis de piratear.
A urgência face aos novos computadores
A importância deste trabalho tornou-se ainda mais clara em 1994, quando Peter Shor demonstrou que um computador quântico poderia quebrar facilmente os métodos de encriptação convencionais. Esta descoberta transformou uma teoria numa necessidade absoluta. O tema ganha cada vez mais relevância, sobretudo quando um recente estudo da Google sugere que computadores quânticos vão conseguir quebrar a encriptação RSA mais cedo que o esperado. Durante a mesma década, Bennett e Brassard estenderam a sua pesquisa ao teletransporte quântico, um processo que permite transmitir informação a usar o fenómeno do entrelaçamento. Este método não move objectos fisicamente, mas transfere a informação que os define. Para a comunicação digital, isto significa que os dados podem viajar entre máquinas sem risco de intercepção. Hoje, a tecnologia idealizada naquele mergulho de 1979 está a ser desenvolvida por governos, startups e grandes empresas. Gigantes tecnológicas correm para construir máquinas poderosas, enquanto investigadores em todo o mundo procuram implementar sistemas de distribuição de chaves baseados directamente nos métodos agora premiados.