Durante vários anos, a Microsoft e a OpenAI mantiveram uma aliança sólida no mercado da inteligência artificial. A gigante de Redmond forneceu o poder de computação e o financiamento, enquanto a criadora do ChatGPT entregou os modelos de base. No entanto, esta parceria parece estar a chegar a um ponto de rotura. Segundo uma notícia publicada pelo jornal Financial Times, a Microsoft planeia avançar com uma acção judicial contra a OpenAI e também contra a rival Amazon. No centro desta disputa está uma parceria estratégica avaliada em 50 mil milhões de dólares, assinada no mês passado entre a Amazon e a OpenAI. A Microsoft alega que este acordo viola de forma flagrante os contratos de exclusividade de computação na nuvem que mantém com a empresa liderada por Sam Altman.
O conflito técnico e as cláusulas de exclusividade
Para compreender a origem do problema, é necessário recuar até ao final de 2025, altura em que a Microsoft reestruturou a sua parceria histórica com a OpenAI. Nessa altura, a empresa cedeu parte da exclusividade total na nuvem para permitir que a OpenAI diversificasse o alojamento dos seus produtos. Contudo, a Microsoft manteve uma cláusula rigorosa. Todas as chamadas de interface de programação de aplicações (API) básicas e stateless para os modelos da OpenAI teriam de passar exclusivamente pela plataforma Microsoft Azure. Esta exigência servia como uma rede de segurança para garantir que o Azure continuaria a ser a infra-estrutura principal para o tráfego de inteligência artificial da OpenAI. Mas a situação mudou quando a Amazon se comprometeu a investir 50 mil milhões de dólares para que a sua divisão AWS se tornasse a distribuidora exclusiva na nuvem de terceiros para a nova plataforma de empresas da OpenAI, designada “Frontier”. Este desentendimento surge numa fase em que a dependência da OpenAI começa a esfumar-se, com a Microsoft a anunciar os seus primeiros modelos de IA próprios, o que já indiciava uma mudança na dinâmica entre as duas entidades.
A manobra da Amazon e a resposta da Microsoft
Para contornar a cláusula da Microsoft, a OpenAI e a Amazon criaram um “Ambiente de Execução com Estado” (Stateful Runtime Environment ou SRE), alojado no Amazon Bedrock. Em termos de software, um modelo “sem estado” processa cada pedido de forma independente, sem reter memória de interacções passadas. É exactamente sobre este tipo de chamadas de API que a Microsoft detém o monopólio. Por outro lado, um ambiente “com estado” mantém a memória e o contexto ao longo do tempo, o que permite aos agentes de inteligência artificial executar tarefas complexas e de múltiplos passos de forma autónoma. A OpenAI e a Amazon defendem que a sua nova arquitectura é fundamentalmente “com estado” e, por isso, não desrespeita o contrato com a Microsoft. No entanto, o Financial Times avança que a gigante de Redmond rejeita esta justificação. A Microsoft argumenta que, independentemente da forma criativa como as duas empresas categorizam a arquitectura técnica, construir um sistema funcional para empresas desta dimensão sem depender de chamadas de API “sem estado” subjacentes é praticamente impossível.
O impacto no mercado da computação na nuvem
Esta ameaça de processo judicial ocorre num momento em que a concorrência entre os fornecedores de serviços na nuvem atinge níveis sem precedentes. Actualmente, a divisão AWS da Amazon gera mais receitas do que os negócios de Cloud e Servidores da Microsoft combinados. Se a Amazon conseguir atrair os clientes empresariais da OpenAI através destas lacunas técnicas, a Microsoft corre o risco de perder a vantagem competitiva que tentou construir ao longo dos últimos anos, um esforço que envolveu investimentos de dezenas de milhares de milhões de dólares. Resta agora aguardar para perceber se o caso vai mesmo chegar aos tribunais ou se as empresas vão tentar alcançar um acordo extrajudicial para evitar uma longa batalha legal.