A fabricante norte-americana AMD apresentou uma nova visão para o futuro da Inteligência Artificial pessoal. A ideia passa por incentivar os utilizadores a comprar uma segunda máquina, dedicada em exclusivo a executar tarefas de IA de forma contínua. Este conceito, baptizado “Computador Agente”, procura afastar a dependência da nuvem e garantir que os dados privados permanecem no ambiente local, sob o controlo total das empresas e dos consumidores. A marca defende que este equipamento secundário deve estar sempre ligado, pronto a receber ordens através de plataformas de comunicação diária, como o WhatsApp ou o Slack. A premissa é simples, mas ambiciosa, pois a AMD quer que deixemos de operar o computador de forma tradicional para passarmos a delegar funções a assistentes virtuais.
A arquitectura por trás do processamento local
Para materializar esta estratégia, a AMD publicou um guia detalhado que explica como configurar a plataforma OpenClaw no Windows. A empresa criou dois caminhos de hardware distintos, denominados “RyzenClaw” e “RadeonClaw”. O ambiente de software assenta no WSL2, com o LM Studio a assumir a inferência local através do llama.cpp, sem qualquer necessidade de ligação a servidores externos. A configuração demora menos de uma hora a ficar pronta, um aspecto optimizado para atrair programadores e entusiastas que pretendem experimentar agentes pessoais. O OpenClaw pode ligar-se a serviços como o Gmail ou o Spotify para trabalhar de forma independente, com a possibilidade de operar num modo isolado para garantir uma segurança reforçada.
RyzenClaw e a aposta na memória unificada
A vertente RyzenClaw baseia-se num sistema equipado com o processador Ryzen AI Max+ e integra uns impressionantes 128 GB de memória unificada. A fabricante recomenda reservar 96 GB desta capacidade como memória gráfica variável, um espaço fundamental para os algoritmos operarem. Ao testar o modelo Qwen 3.5 35B A3B, esta configuração consegue processar cerca de 45 tokens por segundo e despacha 10 mil tokens de entrada em aproximadamente 19,5 segundos. O grande trunfo é a janela de contexto de 260 mil tokens e a capacidade de manter até seis agentes a funcionar em simultâneo. Esta enorme capacidade de memória dá à AMD uma vantagem teórica sobre alternativas populares como o Mac Mini da Apple, que actualmente está limitado a 64 GB de RAM, tornando o processador da AMD numa escolha superior para este tipo de exigência.
RadeonClaw foca-se na velocidade
Por outro lado, a abordagem RadeonClaw junta o OpenClaw à placa gráfica Radeon AI PRO R9700, que inclui 32 GB de VRAM. Esta opção é substancialmente mais rápida. Com o mesmo modelo Qwen, atinge os 120 tokens por segundo e processa os mesmos 10 mil tokens em apenas 4,4 segundos. O compromisso reflecte-se numa janela de contexto menor, de 190 mil tokens, e no suporte para apenas dois agentes em simultâneo, em contraste com os seis permitidos pela via Ryzen. Curiosamente, a R9700 difere das tradicionais placas de estação de trabalho, uma vez que permite overclock e utiliza correcção de erros baseada em software apenas em sistemas Linux, o que a afasta ligeiramente do segmento estritamente profissional, apesar de manter um desempenho formidável.
O peso na carteira e a complexidade de instalação
Apesar das vantagens óbvias em termos de privacidade e da ausência de limites de utilização, o custo de entrada é um obstáculo considerável. A rota RyzenClaw aponta para sistemas como o Framework Desktop, cujo preço base ronda os 2700 dólares, sem sequer contabilizar o armazenamento. Já o caminho RadeonClaw exige a compra da placa R9700, que custa cerca de 1299 dólares por si só. Num momento em que a consultora IDC revê em baixa as previsões para o mercado de computadores e os preços dos componentes continuam a subir de forma acentuada, convencer o consumidor comum a investir milhares de euros numa máquina secundária parece uma tarefa hercúlea. A inflação e o custo de vida levam a que a maioria das pessoas prefira utilizar as ferramentas gratuitas disponíveis na nuvem.
A AMD argumenta que um computador pessoal serve para correr aplicações, enquanto um Computador Agente serve para gerir agentes que operam essas mesmas aplicações por nós. A ideia de delegar tarefas a uma máquina dedicada, que podemos desligar da corrente ou formatar a qualquer momento, oferece uma paz de espírito que a nuvem nunca conseguirá igualar. Contudo, a extensão e complexidade do guia de instalação do OpenClaw mostram que esta tecnologia ainda está numa fase embrionária. Para já, o conceito de PC Agente permanece um luxo destinado a programadores e adoptantes iniciais com orçamento disponível. Para o utilizador comum, explorar o OpenClaw através de um modesto e económico Raspberry Pi, ou simplesmente aguardar que a tecnologia fique mais acessível e aperfeiçoada, poderá ser a decisão mais sensata a tomar a curto prazo.