À primeira vista (nem tivemos a intenção de fazer um trocadilho), estes óculos até podem parecer concorrentes dos Ray-Ban Meta ou dos Bose Alto, mas os Nuance Audio jogam noutro campeonato. Não foram criados para ouvir música, fazer chamadas ou falar com assistentes virtuais: são um «dispositivo médico para pessoas com perda auditiva ligeira a moderada».
Mas, ao contrário do que acontece com aparelhos auditivos tradicionais, estes óculos podem ser comprados sem receita médica. Estão classificados como dispositivo médico de classe IIa pelo Infarmed e podem ser vendidos em ópticas, como a MultiÓpticas, marca que se associou ao lançamento.
Esta classificação determina que os Nuance Audio são considerados um «produto de risco moderado, sujeito a regras de controlo e certificação mais exigentes do que os dispositivos simples, mas menos rigorosas do que os de risco elevado», segundo o Infarmed.
Desta forma, qualquer pessoa, mesmo que não tenha qualquer perda auditiva, pode comprar estes óculos, já que são de venda livre — um dos maiores entraves será mesmo o preço: 770 euros. A marca, no entanto, justifica o preço com a tecnologia: microfones, altifalantes, processadores de áudio e toda a electrónica ficam nas hastes.
A lógica de funcionamento é relativamente simples: há dois microfones direccionais nos cantos das armações que captam o som ambiente e um sistema de amplificação que privilegia as vozes próximas e reduz o ruído de fundo.
Na verdade, este é apenas um dos modos de funcionamento dos Nuance, uma espécie de ‘modo foco’ para prestar especial atenção ao que uma pessoa que esteja à nossa frente diz. O exemplo dado pela marca, durante a apresentação que aconteceu esta semana em Lisboa, foi o de um restaurante, onde os óculos aumentam o áudio do nosso interlocutor, que se sobrepõe ao ruído de fundo.
Para ouvirmos — e como se trata de um par de óculos — não há um auricular que tenha de ser colocado nos ouvidos: o áudio chega-nos a partir de dois altifalantes open-ear colocados na parte traseira das hastes, directamente sobre os ouvidos.
A sensação é a de estarmos a ouvir uma transmissão de rádio, com um som recortado, mas sem ser em HD. Pelas primeiras impressões que tivemos, pudemos notar que a voz da pessoa com quem falamos é mesmo “aumentada”. Ao contrário dos Bose Alto, que servem para ouvir música, a prioridade dos Nuance Audio é outra: ajudar pessoas com perda auditiva ligeira a moderada a acompanhar melhor as conversas.
Para configurar os óculos é necessário recorrer à aplicação da marca. Os Nuance Audio emparelham-se com o smartphone através de Bluetooth e é na app que se definem os perfis auditivos e os níveis de amplificação. Sem esta configuração inicial, o dispositivo «não consegue ajustar o comportamento ao utilizador», sublinhou a marca.
A autonomia máxima anunciada é de «dez horas», embora em utilização intensiva seja mais realista «contar com cerca de oito horas». Ter 100% de bateria demora duas horas, sendo que o carregamento é feito com uma base de indução. Na prática, o hábito será igual ao que temos com um smartwatch: à noite, quando formos dormir, colocamos os Nuance Audio a carregar.
Os óculos estão disponíveis em dois estilos de armação — Square e Panthos — e podem receber lentes graduadas, funcionando como óculos normais no dia-a-dia. Se for este o caso, é mais do que provável que possam ultrapassar os mil euros, mesmo que as lentes tenham pouca graduação.