O mundo da tecnologia depara-se com um novo obstáculo de grandes proporções. Num momento em que as principais empresas de memória RAM direccionam os seus esforços de produção para a inteligência artificial, o mercado de consumo já sofre com aumentos de preços. Contudo, a situação ameaça agravar-se drasticamente devido à instabilidade no Médio Oriente. A guerra que envolve o Irão trouxe consequências directas para o fornecimento de um elemento crítico e muitas vezes ignorado pelo público em geral, o hélio.
O impacto dos ataques no Catar
No início de Março, ataques com drones kamikaze atingiram infraestruturas vitais no Médio Oriente, com destaque para o complexo de Ras Laffan, operado pela QatarEnergy. Esta instalação representa uma das maiores concentrações de produção de hélio a nível global. Após os ataques, a infra-estrutura ficou inoperacional, o que retirou de imediato cerca de 30% do fornecimento mundial deste gás do mercado. A gravidade da situação levou a QatarEnergy a declarar motivo de força maior para suspender os contratos existentes, o que liberta a empresa das obrigações de fornecimento aos seus clientes. Especialistas do sector, alertam que, se a interrupção se prolongar por mais de duas semanas, os distribuidores de gás industrial podem ser forçados a deslocalizar equipamentos criogénicos e a revalidar relações com fornecedores. Este processo tem o potencial de se arrastar por meses, independentemente de quando a produção no Catar voltar a arrancar.
Um gás insubstituível no fabrico de chips
Para a indústria dos semicondutores, o hélio está longe de ser apenas o gás que faz voar balões. Trata-se de um elemento crítico e insubstituível no processo de fabrico. Por ser um gás nobre, não interfere quimicamente com os materiais durante o crescimento de cristais de silício dentro das enormes máquinas que as empresas utilizam para criar as bolachas de silício com chips. O hélio actua como um escudo, ao evitar que os materiais reajam com o oxigénio ou com outros contaminantes, o que garante resultados muito mais puros. Além disso, é imprescindível para dissipar o calor nas máquinas de litografia extrema, para eliminar resíduos após cada ciclo de fabrico e para purgar outros gases nas câmaras de produção. As suas partículas, por serem extremamente pequenas, são perfeitas para detectar as mais ínfimas fugas em câmaras que precisam de operar em vácuo. Sem este gás, as fábricas ficam incapazes de executar tarefas complexas e de manter a produção de chips avançados.
A dependência da Coreia do Sul
A Coreia do Sul encontra-se entre os países mais expostos a esta crise. Dados recentes da Associação de Comércio Internacional da Coreia indicam que o país importou quase 65% do seu hélio a partir do Catar. A nação asiática depende fortemente destas importações para arrefecer as bolachas de silício durante a fabricação e não conta com um substituto viável. O Ministério do Comércio, Indústria e Energia sul-coreano já iniciou uma investigação sobre a oferta e a procura de catorze materiais e equipamentos de semicondutores com elevada dependência de fontes do Médio Oriente. O bromo, utilizado na formação de circuitos, é outra grande preocupação, uma vez que a Coreia do Sul adquire 90% das suas importações a Israel, outro interveniente no conflito actual.
Respostas da indústria e o fantasma de crises passadas
Gigantes da memória como a SK Hynix e a Samsung, que integram processos de fabrico sofisticados como a memória HBM4, necessitam desesperadamente de hélio. A SK Hynix afirmou recentemente que conseguiu diversificar os fornecimentos e garantir um inventário suficiente para o curto prazo. A TSMC também referiu que não antecipa um impacto notável no imediato, embora continue a monitorizar a situação de perto. No entanto, estas garantias servem apenas para o curto prazo. A falta de sistemas de recuperação de hélio em muitas destas fábricas significa que o gás é consumido e perdido, o que impede a sua reutilização. Se o encerramento das rotas no Estreito de Ormuz e a paralisação das refinarias se mantiverem, as reservas das fábricas de chips vão começar a esgotar-se a uma velocidade superior à da reposição. Esta conjuntura traz à memória a escassez de hélio e néon de 2022, desencadeada pela invasão da Ucrânia pela Rússia. Esse evento já tinha levado a Coreia do Sul a procurar diversificar os fornecimentos. Agora, com o mercado de memória RAM já sob pressão e os preços a subir, uma falha prolongada no fornecimento de hélio pode ditar uma paragem dramática na cadeia de abastecimento global, o que vai afectar não só os computadores e smartphones, mas também áreas como a computação quântica e a exploração espacial.