Enquanto o debate político em torno da vacinação não é pacífico nos Estados Unidos, com a nova administração a colocar figuras cépticas em relação às vacinas em cargos de decisão, a literatura científica está a construir uma narrativa fascinante e oposta. Dados recentes indicam que uma vacina comum, desenhada para prevenir a zona (herpes zoster), parece ter a capacidade de evitar a demência, incluindo a doença de Alzheimer, e pode até ser um factor determinante para retardar o envelhecimento biológico.
Ao longo dos últimos anos, diversos estudos têm vindo a notar que os adultos mais velhos vacinados contra a zona apresentam um risco significativamente menor de desenvolver patologias cognitivas. Um estudo publicado no mês passado reforça esta tese, ao sugerir que o mesmo fármaco água a um nível celular profundo, a baixar os marcadores de inflamação no organismo.
O impacto no envelhecimento
A investigadora Eileen Crimmins, da University of Southern California, afirma que este trabalho se junta a um corpo crescente de evidências que sugerem que as vacinas podem estar a desempenhar um papel vital em estratégias de envelhecimento saudável. Segundo a autora, o benefício vai muito além da simples prevenção de uma doença aguda. A protecção conferida parece actuar como um escudo contra a degradação sistémica que, habitualmente, precede o declínio cognitivo.
Outra investigação, revelada este mês, vai ainda mais longe. Os dados indicam que os resultados positivos observados no passado podem, na verdade, ser estimativas por defeito do real potencial desta imunização. Com a introdução de vacinas mais modernas e potentes contra a zona, a protecção contra a demência parece ser ainda mais robusta do que se pensava inicialmente.
O vírus latente no sistema
Se a protecção contra a demência for confirmada como um efeito directo, estamos perante um acaso científico extraordinário. A vacina foi originalmente concebida para a tarefa, inteiramente distinta, de impedir que o vírus varicela-zoster, o responsável pela varicela na infância, volte a activar-se no organismo.
Qualquer pessoa que tenha sofrido de varicela transporta o vírus consigo durante o resto da vida. Este permanece dormente nas células nervosas, mas, se despertar devido ao declínio do sistema imunitário associado à idade, provoca a zona. Esta condição manifesta-se através de uma erupção cutânea dolorosa, com bolhas que podem causar agonia durante semanas. Em casos graves, a reactivação do vírus perto dos olhos ou ouvidos pode resultar em danos permanentes na visão ou na audição.
Evolução da protecção
A primeira vacina a surgir no mercado foi a Zostavax, lançada pela Merck em 2006. O seu funcionamento baseia-se na administração de uma dose elevada de uma versão viva, mas enfraquecida, do vírus. O objectivo passa por estimular o sistema imunitário a reforçar as defesas para manter o vírus sob controlo. Na altura, estudos demonstraram que esta abordagem reduzia o risco de zona em 51%.
Contudo, é a ligação entre esta resposta imunitária e a saúde cerebral que está agora a captar a atenção da comunidade médica. A hipótese de que a vacinação possa estar a prevenir processos inflamatórios crónicos no cérebro, que de outra forma estariam a conduzir à demência, abre portas a uma nova era na medicina preventiva. Se uma vacina já existente e segura puder travar o avanço do Alzheimer, a ciência poderá estar prestes a dar um dos passos mais importantes do século na gestão da saúde pública.