Depois de anos de domínio absoluto no sector dos centros de dados e da inteligência artificial, a Nvidia volta a focar-se no consumidor final com o lançamento iminente dos chips N1 e N1X. Esta nova aposta, baseada na arquitectura Arm e desenvolvida em parceria com a MediaTek, promete desafiar a hegemonia da Intel e da AMD, ao mesmo tempo que tenta replicar o sucesso que a Apple alcançou com os seus processadores da série M.
O regresso da Nvidia ao mercado dos computadores pessoais não é um evento isolado, mas sim uma estratégia deliberada para integrar o seu ecossistema de IA em dispositivos do quotidiano. Segundo informações avançadas pelo The Wall Street Journal e confirmadas por diversas fontes do sector, os primeiros sistemas equipados com este novo chip devem chegar ao mercado já na primeira metade de 2026, com a Dell e a Lenovo a liderar a primeira vaga de lançamentos.
O regresso ao coração do PC
A Nvidia não é uma estranha no mercado de processadores para o mercado de consumo. No passado, a empresa tentou a sorte com os chips Tegra, que chegaram a equipar os primeiros modelos Microsoft Surface em 2012. No entanto, o sucesso comercial foi limitado, o que levou a marca a focar-se em nichos como a consola Nintendo Switch ou o sector automóvel. Agora, o cenário é radicalmente diferente. Com a maturidade da plataforma “Windows on Arm” e a necessidade de hardware capaz de processar tarefas de inteligência artificial localmente, a Nvidia encontra a janela de oportunidade perfeita para a sua reentrada.
Esta nova incursão assenta numa colaboração estreita com a MediaTek. O objectivo passa por criar um System-on-a-Chip (SoC) que combine a eficiência energética dos núcleos Arm com o poder gráfico da arquitectura Blackwell da Nvidia. Jensen Huang descreveu recentemente esta solução como “de baixo consumo, mas muito poderosa”, sublinhando a intenção de criar portáteis mais finos, leves e com uma autonomia de bateria que possa finalmente rivalizar com os MacBook da Apple.
Poder de fogo Blackwell
Os detalhes técnicos que circulam nos bastidores da indústria apontam para um desempenho impressionante. Espera-se que a Nvidia lance pelo menos duas variantes: o N1 e o mais potente N1X. Este último deverá contar com uma configuração de 20 núcleos de processamento, divididos entre dez núcleos de alto desempenho Cortex-X925 e dez núcleos de eficiência Cortex-A725.
No entanto, o verdadeiro trunfo reside na unidade de processamento gráfico. Ao integrar a arquitectura Blackwell, a mesma que equipa as novas placas gráficas da série RTX 50, a Nvidia pretende oferecer um desempenho em jogos e aplicações profissionais nunca antes visto num chip integrado. Rumores sugerem que o N1X poderá atingir níveis de performance semelhantes aos de uma RTX 5070 dedicada, o que tornaria os portáteis de gaming muito mais portáteis e eficientes, ao eliminar a necessidade de chips gráficos volumosos e sistemas de refrigeração pesados.
Dell e Lenovo na linha da frente
A confiança dos fabricantes neste novo projecto é evidente. A Dell prepara-se para introduzir estes chips na sua linha premium XPS, tradicionalmente conhecida pelo design sofisticado e pela produtividade. Manifestos de transporte já revelaram a existência de protótipos de um “Dell 16 Premium” equipado com amostras de engenharia do chip N1X.
Por outro lado, a Lenovo parece pronta a levar esta tecnologia para o segmento do gaming puro. Listagens oficiais da marca chinesa mencionam modelos das séries Yoga, IdeaPad e, crucialmente, a linha Legion. A inclusão de um chip Arm num portátil Legion sugere que a Nvidia e a Lenovo acreditam que a compatibilidade de jogos em arquitectura Arm atingiu um ponto de viragem, permitindo uma experiência fluida sem as limitações que afectaram tentativas anteriores de outros fabricantes.
O desafio da inteligência artificial
Para além do desempenho bruto, estes novos chips são desenhados a pensar no futuro do Windows. A Microsoft tem feito um esforço considerável para promover os PC Copilot+, que exigem uma Unidade de Processamento Neuronal (NPU) capaz de realizar, pelo menos, 45 TOPS (triliões de operações por segundo). Os chips N1 e N1X não só cumprirão estes requisitos, como deverão ultrapassá-los, aproveitando a vasta experiência da Nvidia em aceleração de IA.
Esta integração local de inteligência artificial permite que tarefas complexas, como a edição de vídeo em tempo real ou a geração de imagens, ocorram directamente no dispositivo, sem depender da nuvem. É aqui que a Nvidia espera ganhar vantagem sobre a Qualcomm, que até agora tem sido a única fornecedora relevante de chips Arm para Windows, mas que ainda enfrenta dificuldades no que toca à maturidade dos controladores gráficos e à compatibilidade total com aplicações x86.
Preço e posicionamento de mercado
Apesar do entusiasmo, o sucesso comercial dos portáteis Nvidia Arm dependerá do preço final ao consumidor. Analistas de mercado, como Jason Tsai da Digitimes, alertam que estes dispositivos correm o risco de se tornarem produtos de luxo de nicho se o preço ultrapassar a barreira dos 1.500 euros. Para que ocorra uma adopção em massa, a Nvidia e os seus parceiros precisam de posicionar os modelos de entrada num intervalo entre os 1.000 e os 1.300 euros.
A apresentação oficial destes processadores deverá ocorrer durante a conferência GTC da Nvidia, agendada para Março de 2026. Até lá, a indústria observa com atenção os movimentos da “equipa verde”. Se a Nvidia conseguir entregar o que promete, o mercado de portáteis poderá estar prestes a sofrer a sua maior transformação da última década, forçando a Intel e a AMD a acelerar os seus próprios planos para a arquitectura Arm ou a reinventar drasticamente a eficiência do x86.