A Microsoft apostou o seu futuro na Inteligência Artificial generativa, mas os números mais recentes sugerem que a transição de “curiosidade tecnológica” para “ferramenta essencial paga” está a ser mais lenta do que Redmond antecipava. Apesar de um investimento colossal que ascende aos 37,5 mil milhões de dólares (cerca de 35 mil milhões de euros) no último trimestre fiscal, a taxa de conversão de utilizadores gratuitos para subscritores pagos do Copilot permanece nuns modestos 3,3%.
A realidade dos números
Durante a última apresentação de resultados, Satya Nadella, CEO da Microsoft, manteve um tom optimista, afirmando que a base de utilizadores do Copilot cresceu quase três vezes em termos homólogos. No entanto, este crescimento é uma métrica complexa. Inclui não apenas as subscrições pagas, mas também interacções gratuitas no motor de busca Bing, no browser Edge e integrações básicas no Windows 11.
De acordo com dados analisados pelo site Directions on Microsoft, embora existam cerca de 15 milhões de licenças pagas do Microsoft 365 Copilot, o que corresponde a um crescimento impressionante de 160% face ao ano anterior, este número é uma gota no oceano quando comparado com o universo de 450 milhões de utilizadores que têm acesso a versões gratuitas ou integradas. O fosso entre o investimento massivo em infra-estrutura e o retorno directo via subscrições está a começar a inquietar os investidores, que questionam se a IA será, de facto, o motor de rentabilidade prometido.
O obstáculo dos 20 euros
O Microsoft 365 Copilot tem um preço de tabela de 19,04 euros por utilizador por mês para contas novas nas PME e de novos utilizadores e de 26 euros por utilizador para as empresas maiores também por mês, como um suplemento aos planos existentes. A proposta de valor é clara: um agente de IA capaz de analisar reuniões no Teams, redigir documentos no Word, criar apresentações no PowerPoint e processar dados complexos no Excel.
Contudo, para muitas empresas (principalmente as PME), o custo adicional de 228 euros anuais por funcionário é difícil de justificar sem provas empíricas de um aumento drástico na produtividade. A Microsoft tem tentado posicionar o Copilot como um “agente” que actua em nome do utilizador, diferenciando-o do ChatGPT da OpenAI, mas a adopção orgânica parece estar a sofrer com a saturação de ferramentas de IA e com a curva de aprendizagem necessária para extrair valor real destas integrações.
Recuo estratégico no Windows 11
Um sinal claro de que a estratégia pode necessitar de ajustes é a recente reavaliação da presença da IA no Windows 11. Relatos indicam que a Microsoft está a considerar simplificar ou remover funcionalidades de IA que os utilizadores consideram redundantes ou intrusivas. Ferramentas como a integração do Copilot no Bloco de Notas (Notepad) ou no Paint, que foram inicialmente promovidas como o futuro do sistema operativo, podem vir a ser reduzidas.
Este recuo sugere que a estratégia de “IA em todo o lado” pode ter gerado uma fadiga nos utilizadores. A pressão dos investidores sobre os gastos exorbitantes, sem um retorno proporcional imediato, está a forçar a tecnológica a ser mais selectiva sobre onde e como implementa estas funcionalidades.
O investimento vs. retorno real
Amy Hood, CFO da Microsoft, defendeu recentemente os gastos da empresa, argumentando que medir o sucesso da IA apenas pelo crescimento do negócio de nuvem Azure é um erro. No entanto, com 37,5 mil milhões de dólares gastos num único trimestre em centros de dados e hardware focado em IA, o mercado exige resultados tangíveis.
O desafio da Microsoft não é a falta de tecnologia, mas sim a sua monetização. Enquanto o Copilot for visto como um acessório de luxo e não como uma necessidade operacional, a taxa de 3,3% de conversão continuará a ser o “calcanhar de Aquiles” de Satya Nadella. O futuro da produtividade pode passar pela IA, mas o caminho para a rentabilidade parece ser mais íngreme do que os diapositivos de marketing faziam prever.