A unidade de cibercrime do Ministério Público de Paris, em colaboração estreita com a polícia nacional de cibersegurança francesa e a Europol, executou na esta terça-feira uma rusga de grande envergadura à sede da rede social X (anteriormente Twitter) em França. Esta operação marca uma escalada sem precedentes numa investigação criminal que dura há cerca de um ano, focada em suspeitas graves de manipulação algorítmica, falhas sistémicas na moderação de conteúdos e a distribuição de material ilícito.
O foco das autoridades recai sobre as práticas de gestão de dados da plataforma liderada por Elon Musk, com especial atenção à forma como os sistemas automatizados de processamento de dados poderão estar a ser distorcidos para amplificar narrativas prejudiciais ou facilitar actividades criminosas.
Investigação por crimes cibernéticos e manipulação algorítmica
A investigação, iniciada formalmente a 5 de Janeiro de 2025 após uma queixa de um legislador, centrou-se originalmente em alegações de que os algoritmos de recomendação do X estariam a enviesar deliberadamente o processamento de dados. No entanto, o âmbito do inquérito expandiu-se drasticamente em Julho de 2025. Os investigadores estão agora a analisar o que descrevem como “extracção fraudulenta de dados” e uma manipulação organizada dos algoritmos de recomendação, que alegadamente terá amplificado conteúdos nocivos de forma artificial.
As autoridades procuram provas de que a arquitectura de software da plataforma foi ajustada para contornar as leis digitais francesas e europeias, permitindo a propagação de desinformação e conteúdos que violam os direitos fundamentais. Entre as acusações mais graves está a cumplicidade na retenção e distribuição de imagens de exploração infantil, um crime que, sob a jurisdição francesa, pode levar a penas de até 10 anos de prisão para os responsáveis.
O papel do Grok e a proliferação de Deepfakes
Um dos pontos centrais desta rusga é o Grok, o chatbot de inteligência artificial generativa integrado no X. Relatórios internos e denúncias indicam que a IA tem sido utilizada para disseminar conteúdos de negação do Holocausto e para a criação de deepfakes sexualmente explícitos, infringindo gravemente os direitos de imagem e a dignidade das vítimas.
A Europol sublinhou que o envolvimento nesta operação se deve à natureza transfronteiriça destes crimes. A proliferação de imagens não consensuais geradas por IA e a falta de salvaguardas eficazes na moderação automatizada colocam o X numa posição de vulnerabilidade legal extrema perante o novo quadro regulatório europeu. Os peritos forenses estão a analisar os registos de treino da IA e os logs de moderação para determinar se houve negligência grosseira ou intenção deliberada na facilitação destes conteúdos.
Consequências legais e Isolamento Institucional
Como resultado directo da operação, o Ministério Público de Paris convocou Elon Musk, na qualidade de presidente do conselho de administração, e Linda Yaccarino, ex-CEO que renunciou ao cargo em Julho de 2025, para interrogatórios voluntários agendados para o dia 20 de Abril em Paris. Outros funcionários da delegação francesa foram também arrolados como testemunhas.
A tensão entre a plataforma e o Estado francês atingiu um ponto de ruptura, levando o Ministério Público a anunciar o cessar imediato de todas as comunicações oficiais através do X, migrando as suas operações de informação pública para o LinkedIn e o Instagram. Embora o X tenha classificado a investigação como tendo “motivações políticas”, o rigor técnico das provas recolhidas poderá resultar em multas astronómicas ou mesmo em restrições operacionais severas dentro do espaço da União Europeia. Este caso estabelece um precedente crítico para a responsabilidade das grandes tecnológicas sobre os seus algoritmos e a segurança dos seus utilizadores.