Miúdos, cheguem-se bem perto, quero contar-vos uma história. Podem não acreditar mas, em tempos, podíamos entrar numa loja e comprar coisas. Daquelas a sério, tipo livros, discos, frigoríficos e carros. E, assim que as pagavam – e só as pagavam uma vez – eram vossas. Para sempre. Juro que é verdade.
O mundo actual é muito conveniente. Querem ver um filme ou uma série? Há mil plataformas para isso. Ouvir música? Temos todos os artistas de todas as épocas por meia dúzia de euros/mês – o primeiro é oferta. Até podem encontrar o match da vossa vida com um simples upgrade.
Tudo é inteligente agora. A máquina de lavar, a televisão, as redes sociais que empurram conteúdos sob o disfarce de contacto humano, os automóveis. O frigorífico fala connosco para avisar que falta queijo e toma lá um anúncio com as promoções do supermercado mais próximo. A subscrição premium é ad free.
Aceitamos que os nossos dispositivos se tornem obsoletos ao fim de meia dúzia de anos – a última versão é sempre mais inteligente que a anterior – e que sejam impossíveis de reparar. (‘O pacote Gold oferece reparação à distância, mesmo após o fim da garantia’). Estamos a ser operados por controlo remoto e nem notamos.
Como descobriram os proprietários de Porsches na Rússia que, por causa de uma falha no sistema de tracking desenhado para ninguém roubar o seu veículo, ficaram com os tijolos com pneus mais luxuosos do mundo. Os carros não andavam, o que é pouco premium da parte deles. O que me leva a pensar: como seria um colapso digital total? O que sobra se os nossos dispositivos se apagarem? Ou se não pudermos pagar a subscrição?
O capitalismo ensinou-nos que somos o que temos. Agora, como consumidores sem direito de propriedade sobre o que consumimos, somos a soma das nossas subscrições. Mas não se preocupem. Se as estantes vazias dão-vos problemas de identidade e os posters motivacionais já não dão energia às vossas paredes, tenho uma solução desenhada à medida da vossa ansiedade. O primeiro mês é grátis.