A vaga de ataques cibernéticos a infraestruturas físicas continua a alastrar pelo continente europeu, visando agora um alvo insólito, mas crítico para o abastecimento público. Durante a madrugada de 2 de Novembro, piratas informáticos assumiram o controlo remoto de dezenas de sistemas de refrigeração em supermercados na Suécia e na Bélgica. Segundo avança o Tom’s Hardware, os invasores manipularam o software destas unidades para elevar as temperaturas internas até aos 50 graus Celsius, provocando o descongelamento rápido e a destruição de stocks alimentares avaliados em milhões de euros. Este incidente surge poucas semanas após uma investida semelhante ter paralisado várias superfícies comerciais em França.
A situação assumiu contornos de catástrofe logística em território sueco, onde o Cybersecurity News relata que os termómetros de algumas arcas chegaram mesmo a registar 55 graus Celsius. A rede de supermercados ICA e seis lojas da marca Coop foram severamente atingidas durante a noite. Mats Olsson, gerente da loja ICA Nära na localidade de Böda, deparou-se com um cenário de inundação ao chegar ao estabelecimento, encontrando os equipamentos de frio completamente desactivados e os respectivos conteúdos arruinados. O impacto estendeu-se a múltiplas regiões, afectando superfícies em Sjöbo, Tomelilla, Brösarp, Sankt Olof, Öland, Värmland e Estocolmo. Na capital sueca, os funcionários da loja ICA Baronen assistiram impotentes a uma subida abrupta da temperatura dos 38 graus para a casa dos 50 graus. A unidade de Sjöbo foi forçada a encerrar temporariamente as portas ao público, enquanto a sucursal Ica Kvantum utilizou a rede social Facebook para lamentar a perda total dos bens.
Paralelamente, o cenário repetiu-se na Bélgica, onde cadeias de renome como a Delhaize, a Carrefour e a Spar viram os seus sistemas comprometidos a partir da meia-noite de domingo. A empresa instaladora de refrigeração Sabcobel estima que pelo menos 20 unidades tenham sido afectadas a nível nacional. Apesar da gravidade da situação, Gustaf Nilsson, porta-voz da ICA, esclareceu que as lojas atingidas possuíam ligações externas à rede central da empresa. Esta distinção técnica é fundamental, pois indica que o ataque não consistiu numa violação dos sistemas corporativos centrais, mas sim numa exploração directa de vulnerabilidades nos equipamentos locais ligados à internet.
O mecanismo de sabotagem térmica
A táctica utilizada pelos cibercriminosos revela um conhecimento profundo sobre o funcionamento industrial destes equipamentos. Em vez de simplesmente desligarem os motores, os atacantes activaram remotamente o modo de descongelação integrado nas arcas. Esta função, concebida originalmente para limpar a acumulação de gelo de forma controlada, foi forçada a operar de modo contínuo, anulando os limites normais de temperatura e de tempo. Embora as autoridades suecas ainda não tenham identificado as marcas dos controladores afectados nesta vaga mais recente, os incidentes anteriores em França forneceram pistas vitais. A equipa nacional de resposta a emergências informáticas francesa, conhecida como CERT-FR, confirmou na altura que os ataques envolveram o comprometimento de controladores das marcas Danfoss AK-SM e AK-SC, bem como dispositivos Copeland xweb e Dixell xweb.
O grande problema reside na exposição directa das interfaces de gestão destes sistemas à internet pública. Esta configuração negligente cria uma rota de acesso livre para que agentes maliciosos manipulem condições físicas reais, em vez de se limitarem ao roubo de dados financeiros ou registos comerciais. A agência francesa emitiu alertas rigorosos, sublinhando que a simples reinicialização de um controlador obsoleto não resolve o problema. Sem a remoção da exposição online e a correcção da vulnerabilidade subjacente, o equipamento continua à mercê dos atacantes, colocando em risco as novas remessas de alimentos assim que o arrefecimento é retomado e as prateleiras começam a ser reabastecidas.
Medidas de protecção e o papel da inteligência artificial
Para travar esta escalada de sabotagem, as empresas estão a implementar medidas de emergência. Stephan Moelans, director executivo da Sabcobel, explicou que a transição das unidades para uma ligação segura à internet é a solução provisória mais simples, uma medida já adoptada pela maioria dos clientes após os ataques em França, embora a protecção definitiva exija modificações físicas nos equipamentos. A directriz técnica actual passa por remover o acesso público à internet, verificar as configurações dos controladores e os horários de descongelação, e restaurar o acesso remoto exclusivamente através de uma rede privada virtual segura. A actualização de firmware e a alteração das palavras-passe predefinidas de fábrica são passos igualmente obrigatórios.
Esta sucessão de incidentes em apenas algumas semanas funciona como um lembrete alarmante sobre a dependência que as infraestruturas básicas da sociedade têm da conectividade online. O aumento das intrusões cibernéticas com impacto directo no mundo físico parece estar directamente correlacionado com a proliferação de agentes de inteligência artificial. Estes novos modelos tecnológicos permitem que indivíduos sem grandes competências técnicas consigam executar ataques complexos com enorme facilidade, um fenómeno que já tinha ficado patente em Outubro, quando um pirata informático utilizou estas ferramentas para roubar os dados de 25.000 clientes de bancos na Coreia do Sul. A convergência entre a vulnerabilidade do hardware conectado e a automação do cibercrime promete manter o sector do retalho alimentar em estado de alerta máximo.
