A ficção científica habituou-nos a acreditar que qualquer desafio espacial pode ser superado com tempo e investimento suficientes. A realidade, contudo, costuma ser bem mais fria e implacável. Um novo estudo publicado na revista Frontiers in Space Technology apresenta provas de que a criação de colonatos humanos de grandes dimensões na Lua pode ser uma impossibilidade absoluta.
O principal obstáculo não é a energia nem a radiação, mas sim a escassez de água. Os investigadores analisaram várias potenciais adversidades para futuras bases lunares e concluíram que a obtenção de electricidade seria pacífica, pois basta aproveitar a luz solar abundante nas bordas das grandes crateras. O verdadeiro drama reside no interior permanentemente sombrio dessas mesmas formações geológicas. É nestas zonas que se escondem depósitos de gelo que deverão conter cerca de 1000 milhões de toneladas de água.
À primeira vista, esta quantidade parece inesgotável para suportar a vida humana. O problema surge quando tentamos escalar a ambição para povoações gigantescas. O documento define um colonato de grandes dimensões como tendo um milhão de habitantes. Para gerir recursos a esta escala, as agências espaciais têm procurado soluções inovadoras. A recente aposta num modelo de inteligência artificial para explorar a Lua tenta precisamente mapear e optimizar estas missões de forma exacta. Contudo, a matemática do consumo hídrico recusa-se a cooperar com o optimismo tecnológico.
Um relógio em contagem decrescente
Os cálculos da equipa científica são arrepiantes. Mesmo que uma colónia lunar consiga atingir 98% de eficiência na reciclagem de água, um valor equiparável aos sistemas actualmente utilizados na Estação Espacial Internacional, o desfecho seria trágico. A Lua ficaria totalmente sem reservas hídricas para sustentar a população no espaço de apenas 100 anos. Transportar o líquido vital a partir do nosso planeta para abastecer um milhão de pessoas está completamente fora de questão devido aos custos astronómicos e à logística impossível.
Recolher gelo de asteróides ou de outras luas do sistema solar também não resolve o problema no imediato. A maioria destes corpos celestes com recursos úteis está mais perto de Marte do que da Terra. Os autores do estudo sublinham que, a menos que a eficiência de reciclagem seja multiplicada por dez, a habitação humana a longo prazo fica irremediavelmente comprometida. Resta apenas uma solução viável para garantir o futuro da exploração espacial e evitar o colapso destas missões.
O segredo debaixo do solo
A esperança recai agora sobre a descoberta de novas e vastas reservas subterrâneas. O gelo já foi confirmado nas crateras sombrias, mas uma prospecção profunda poderá revelar oceanos congelados ocultos sob o regolito lunar. Se estas reservas não forem encontradas, o sonho de uma metrópole extraterrestre terá de ser abandonado. O nosso satélite natural ficará limitado a pequenos postos avançados de cariz militar ou científico.
O universo continuará a ser um ambiente hostil e inabitável na sua esmagadora maioria. A ambição de gigantes do sector privado poderá esbarrar nesta dura realidade física. No fim das contas, quer falemos da órbita terrestre baixa ou da superfície poeirenta da Lua, o espaço arrisca-se a permanecer um domínio exclusivo de um pequeno grupo de indivíduos ultrarricos durante um futuro previsível.
