A indústria dos videojogos continua a atravessar um período de forte turbulência, e a Microsoft parece estar a preparar uma das reestruturações mais drásticas da sua história recente. A divisão de videojogos da gigante norte-americana está a planear o encerramento de várias equipas de desenvolvimento e uma nova vaga de despedimentos que promete abalar o mercado.
Segundo o site The Verge, a Ninja Theory, responsável pela aclamada série Hellblade, já foi informada de que vai fechar portas. A equipa britânica tenta agora encontrar um comprador de última hora para manter as operações activas, mas o futuro do estúdio permanece incerto.
O desespero para evitar o encerramento
A situação é igualmente grave para outras equipas históricas que operam debaixo do guarda-chuva da Microsoft. A Double Fine Productions, fundada por Tim Schafer e conhecida por clássicos como Psychonauts, e a Compulsion Games, criadora de We Happy Few, estão em negociações activas para comprar a sua própria independência. O objectivo é replicar o modelo adoptado recentemente pela Toys For Bob, separando-se da empresa-mãe para evitar o fecho definitivo.
Esta purga interna surge na sequência de um memorando enviado aos funcionários pela nova directora executiva da divisão, Asha Sharma, e pelo director de conteúdos, Matt Booty. O documento falava na necessidade de um “reinício” do negócio, apontando para o declínio das receitas e para o facto de a empresa se ter expandido em demasia ao longo da última década sem garantir o financiamento adequado para todas as equipas. A nova CEO já tinha alertado que a sobrevivência do sector passa por hardware mais acessível, e agora aplica uma estratégia agressiva de contenção de custos.
Mudanças na liderança e foco na sustentabilidade
A crise não se limita aos estúdios de desenvolvimento, estendendo-se também aos cargos de chefia. Craig Duncan, que assumiu a liderança da Xbox Game Studios em Outubro de 2024, vai abandonar o cargo, deixando as equipas a reportar temporariamente a Matt Booty. A chefe de gabinete, Louise O’Connor, também está de saída.
O próprio Satya Nadella, director executivo da Microsoft, sublinhou recentemente que, após 25 anos de investimento na marca, é imperativo transformar a divisão num negócio sustentável. Curiosamente, esta reestruturação acontece numa altura em que a Microsoft prepara edições comemorativas do seu hardware actual, tentando manter o entusiasmo dos jogadores. No entanto, mesmo com novos periféricos a caminho do mercado, a prioridade interna é claramente a redução de despesas antes do final do ano fiscal.
O efeito dominó noutras empresas
O clima de incerteza não afecta apenas a Microsoft. Vários jornalistas e analistas do sector apontam para um cenário de catástrofe generalizada na indústria, com várias empresas a preparar cortes significativos. Entre os estúdios em risco, destacam-se:
- Arkane Lyon: O estúdio francês corre um sério risco de encerrar portas. Após o fracasso comercial de Deathloop e os custos adicionais associados ao desenvolvimento de propriedades licenciadas como Marvel’s Blade, o futuro da equipa parece sombrio, especialmente depois do fecho do estúdio irmão, a Arkane Austin.
- Bethesda Game Studios: Uma das situações mais surpreendentes, visto que a liderança expressou recentemente o desejo de aumentar o financiamento para grandes propriedades intelectuais como Elder Scrolls e Fallout. Reduzir a equipa nesta fase crucial de desenvolvimento parece contraditório, mas os rumores de cortes persistem.
- id Software: Apesar do desempenho comercial adequado de DOOM The Dark Ages, existem indicações de que a equipa pode sofrer despedimentos ou ver projectos não anunciados cancelados a curto prazo para equilibrar as contas.
- BioWare e Don’t Nod: Fora da esfera da Microsoft, estas empresas também enfrentam dificuldades extremas. A BioWare sofreu várias rondas de despedimentos após vendas desapontantes e opera agora com uma equipa muito reduzida. Já a Don’t Nod vê as suas reservas financeiras a esgotar-se rapidamente, sem que os investidores anteriores mostrem interesse em injectar mais capital.
- PlayStation Studios: A crise estende-se à principal rival. Estúdios da Sony, como a Media Molecule, que não lança um sucesso financeiro desde Dreams em 2020, ou a Haven Studios, cujo projecto Fairgames não tem gerado o entusiasmo esperado, podem estar na linha da frente para eventuais reestruturações e despedimentos.