A Google está a investir na criação dos seus próprios processadores de inteligência artificial de forma muito mais agressiva. Durante anos, a empresa construiu as suas Tensor Processing Units (TPU) essencialmente para lidar com as suas próprias cargas de trabalho internas, como a pesquisa e o reconhecimento de voz. Agora, a gigante tecnológica quer transformar essa vantagem interna num negócio capaz de fazer frente à Nvidia.
O projecto Lake Mariner e a nova estratégia financeira
Um exemplo claro desta mudança de rumo encontra-se no oeste do estado de Nova Iorque, num centro de dados focado em inteligência artificial chamado Lake Mariner. A Alphabet, empresa-mãe da Google, forneceu uma garantia financeira de 3,2 mil milhões de dólares para o projecto. Os promotores deste espaço planeiam alugar o poder de computação de milhares de chips da Google à Anthropic.
A táctica é muito semelhante à utilizada pela própria Nvidia, que passa por apoiar o financiamento de centros de dados para depois beneficiar quando essas instalações compram os seus processadores. Este tipo de financiamento tornou-se crucial à medida que o mercado de computação para IA ficou mais apertado, transformando-se numa corrida pelo acesso puro ao poder de processamento.
Uma história com mais de uma década
A história por trás desta aposta remonta a 2013. Jeff Dean, actual cientista-chefe do laboratório DeepMind, percebeu na altura que, se quisessem disponibilizar modelos de reconhecimento de voz a cem milhões de utilizadores, precisariam de duplicar o número de computadores da empresa. A conclusão foi simples: era necessário construir hardware especializado. Este momento ajudou a impulsionar o programa TPU, que já produziu múltiplas gerações de processadores.
Inicialmente, a Google guardou estes chips para si, mas começou a oferecê-los através da Google Cloud à medida que a procura por computação de inteligência artificial explodiu. Esta expansão da IA não se limita aos servidores, chegando também aos dispositivos de pulso, como se viu recentemente quando a empresa decidiu integrar o assistente Gemini na nova versão do seu sistema operativo para relógios inteligentes.
Para testar o mercado empresarial, a Google fechou um acordo de cinco mil milhões de dólares com a Blackstone para criar um novo negócio de serviços na nuvem, desenhado para competir com fornecedores alinhados com a Nvidia. Além disso, decidiu vender chips directamente aos clientes, em vez de o fazer apenas através da sua infra-estrutura cloud.
O domínio da Nvidia e o receio das empresas
A Nvidia, por seu lado, não está a tratar as TPU como uma ameaça existencial. A empresa ainda controla mais de 90% do mercado de chips de IA. O CEO da Nvidia, Jensen Huang, afirmou recentemente que adoraria ver a concorrência demonstrar a vantagem de custos das TPU, considerando que isso não faz sentido na sua perspectiva. No entanto, o mercado procura alternativas por vários motivos:
- Redução de custos operacionais: Empresas como a Citadel Securities afirmam que conseguem executar cargas de trabalho essenciais a um custo 30% inferior e até quatro vezes mais rápido ao utilizar as TPU da Google em vez das soluções tradicionais.
- Medo da dependência tecnológica: Alguns fornecedores de serviços na nuvem receiam ficar presos ao ecossistema de software e hardware da Nvidia, uma situação que os especialistas da indústria apelidam, em tom de brincadeira, de “prisão do Jensen”.
- Acesso garantido a hardware: Existe o receio generalizado de que desviar o investimento para outras marcas possa custar o acesso aos processadores mais cobiçados da líder de mercado, o que leva as empresas a procurar fornecedores com capacidade de produção independente.
Para contrariar esta inércia, a Google está a tentar usar o seu poder financeiro. A empresa planeia angariar 85 mil milhões de dólares em capital, em grande parte para apoiar a infra-estrutura de inteligência artificial, garantindo que o mercado tem, finalmente, uma alternativa viável e robusta.