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O homem múltiplo

Walter Benjamin defendeu que multiplicar é desvalorizar. Ou seja, o homem múltiplo não vale nada. Mas, verdade seja dita, já não tinha o Mark em grande conta, de qualquer forma.

Alexandre Gamela
Publicado em 31 de Maio, 2026
Tempo de leitura: 3 min
Rawpixel/Freepik

‘Offload’: esta é a palavra de ordem no admirável mundo da IA. Primeiro de trabalho, depois de trabalhadores, a seguir de inteligência e, agora, de identidade. Depois das entidades artificiais que passam por gente a sério, chegaram os sucedâneos digitais de gente que já existe. Mas a cópia não é o original.

Em ‘Multiplicity’ (1996), Michael Keaton cria um grupo de clones para lidar com todas as exigências da sua vida. Homer, em ‘Os Simpsons’, fez o mesmo, num episódio de Halloween. Em ambos os casos, as cópias não se comportam como o original, com personalidades que exageram um traço da matriz. Cada clone é uma caricatura do real, com os devidos efeitos cómicos.

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Mark Zuckerberg não deve conhecer os benefícios admonitórios da comédia. Senão, nunca teria pensado em criar um clone em IA para que os seus subordinados possam falar com Ele. A capitalização é propositada: com esta simulação, treinada nos seus registos e maneirismos, Mark torna-se ubíquo. O digital está sempre disponível, enquanto o real pode ir fazer uma sesta. E aprende mais depressa do que a versão de matéria orgânica.

Só que, como a IA tem tendência para divergir, pergunto-me: o Mark original é responsável pelo que o Mark artificial diz? E se for mais competente ou, até, mais humano? E se os subordinados gostarem mais da cópia do que do original? Como crentes que oram a representações do divino, as suas preces serão ouvidas pelo Altíssimo? Como será o log de Deus, quero dizer, do Meta Mark? Será que ele o lê? Nada, a IA faz-lhe um resumo em formato de podcast para ouvir no ginásio, pois claro.

Baudrillard postulou que um simulacro não é apenas uma cópia do real, é uma representação que não tem base numa realidade subjacente. É algo que se torna mais importante do que aquilo que deveria representar, acabando por substituí-lo. Simulando-se o verdadeiro Mark Zuckerberg, deixa ele de ser real?

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Walter Benjamin defendeu que multiplicar é desvalorizar. Ou seja, o homem múltiplo não vale nada. Mas, verdade seja dita, já não tinha o Mark em grande conta, de qualquer forma.

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Etiquetas:digitalIAOpiniãoReal
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