Há uns meses tropecei num podcast do The Economist chamado Scam Inc. No trailer, ouvi um termo que nunca tinha associado a burlas: ‘pig-butchering’ (ou ‘pig farming’). O termo exprime a estratégia utilizada por uma indústria global de burlas financeiras em que a vítima é manipulada (engordada) ao longo do tempo antes de ser enganada. Não é propriamente a burla rápida com que somos diariamente confrontados, mas algo que aconselho vivamente a ouvir.
Queria falar destas burlas mais rápidas até porque, há pouco tempo, caí na esparrela. Supostamente tinha uns pontos da aplicação dos supermercados Continente a expirar que deveria trocar por um prémio à escolha. Dava-me mesmo jeito aquela nova centrifugadora para sumos e pimba… lá se foram quinze euros mais despesas de envio.
No pig-butchering, basta confiar na pessoa errada durante tempo suficiente; nas burlas rápidas, basta um momento de distracção. E eu distraí-me. Bem pior é que, actualmente, há no País milhões de pessoas acima dos 65 anos que vivem com medo de atender o telefone ou responder a uma SMS, alertadas por filhos e netos dos perigos das burlas. Há exemplos do falso prémio, das multas das Finanças, do estacionamento, das dívidas às operadoras… o catálogo é extenso.
Andei meses a dizer que o nome desta coluna tinha, finalmente, deixado de ser uma ironia para passar a ser uma constatação. O problema é que já nada parece surpreender.
Surpreendeu a Rita Barbosa, engenheira informática que participou e ganhou a Hackathon de IA da Europa: criou uma app que desliga chamadas de burlões antes de as nossas avós dizerem ‘Sim’. Um agente de IA ouve a chamada, analisa o padrão, decide em dois segundos e corta a linha, tudo sem nos pedir que saibamos distinguir um inspector da PJ de um tipo num call center, em qualquer parte do mundo.
Falsos positivos? Privacidade? Queremos um algoritmo a ouvir as nossas chamadas, mesmo que localmente? São perguntas válidas e sérias… como séria foi a realidade da avó da Rita, que perdeu quatro mil euros e deixou de usar o telemóvel por medo.
Como tantas vezes se diz da polícia: onde estava esta app quando eu precisei dela?