Recentemente, a indústria dos semicondutores assistiu a um marco notável. Um sistema de Inteligência Artificial autónomo conseguiu projectar um núcleo de processador RISC-V completo, a partir do zero, em apenas doze horas. A notícia, avançada pelo site TechSpot, indica que esta é a primeira vez que um agente autónomo constrói um CPU funcional desde a fase de especificação até ao formato GDSII, pronto para fabrico.
Ao contrário das abordagens tradicionais, o agente de IA seguiu o ciclo de design convencional, que passa por desenhar, construir, testar e refinar. No entanto, realizou todas estas etapas de forma totalmente autónoma, sem depender de ferramentas de automação separadas para cada fase do processo.
O nascimento do processador VerCore
O chip, baptizado VerCore, foi criado pela startup de design de semicondutores Verkor.io. Para atingir este objectivo, a empresa utilizou o seu próprio sistema, o Design Conductor. De acordo com um documento técnico publicado pela marca, o VerCore integra uma arquitectura de pipeline de cinco estágios e oferece uma velocidade de relógio de 1,48 GHz.
Em termos de desempenho, o processador obteve 3261 pontos no CoreMark, uma ferramenta especializada para medir a capacidade de microcontroladores e CPU em sistemas embutidos. Este resultado modesto sugere que o VerCore consegue apenas acompanhar um Intel Celeron SU2300 de gama de entrada lançado em meados de 2011. Fica claro que o novo design não tem a capacidade de competir com os processadores modernos para executar tarefas complexas, mas serve como uma prova de conceito impressionante.
Como funciona o sistema de automação
É importante referir que o Design Conductor não é, por si só, um modelo de Inteligência Artificial. Na verdade, trata-se de uma ferramenta de controlo que obriga os grandes modelos de linguagem a seguir um conjunto específico de instruções para alcançar um objectivo definido. Neste caso concreto, o sistema trabalhou de forma autónoma a partir de um documento de especificações com apenas 219 palavras, fornecido pelos engenheiros da Verkor.io. O resultado final foi um ficheiro GDSII que pode ser utilizado para fabricar um núcleo de CPU real através de software EDA.
Numa altura em que as vendas globais de semicondutores caminham para atingir valores históricos em 2026, a automação no design ganha especial relevância para acelerar o desenvolvimento de novos componentes para as empresas do sector.
Validação e próximos passos
Apesar do sucesso do projecto, existe um detalhe fundamental a ter em conta. O VerCore ainda não foi fabricado fisicamente. Até ao momento, o chip foi apenas validado em simulação, a utilizar o simulador de referência RISC-V ISA, conhecido como Spike. O seu layout foi desenhado a aplicar o ASAP7 PDK, um kit de design académico de código aberto que modela um processo de fabrico na classe dos 7 nanómetros.
A Verkor.io planeia disponibilizar todos os ficheiros de design relevantes até ao final deste mês. Esta decisão vai permitir que designers de hardware e engenheiros independentes possam verificar as alegações da empresa. Além disso, a startup pretende mostrar uma implementação FPGA do VerCore na Design Automation Conference, que vai decorrer em Long Beach, na Califórnia, no próximo mês de Julho.
O uso de IA para a síntese de hardware digital não é uma novidade absoluta. Em 2020, um modelo GPT-2 optimizado, chamado DAVE, foi treinado para gerar circuitos lógicos simples. Mais tarde, em 2023, surgiu o layout de um processador de 8 bits projectado inteiramente pelo GPT-4. Agora, em 2026, a maioria dos grandes modelos de linguagem já consegue desenhar e testar chips com funcionalidades básicas, embora com níveis de fiabilidade variáveis.