A crise actual no fornecimento de memória não dá sinais de abrandar e a enorme procura por componentes pode agravar-se à medida que os veículos sem condutor e a robótica avançada ganham terreno. A Micron, uma das gigantes mundiais no fabrico de semicondutores, prevê que os automóveis totalmente autónomos e os robôs de nova geração vão necessitar de 300 GB de memória DRAM, ou até mais, para funcionar de correctamente.
Sanjay Mehrotra, CEO da Micron, partilhou esta previsão durante a recente apresentação de resultados financeiros da empresa. O executivo explicou que os automóveis capazes de conduzir sozinhos vão representar um segmento de mercado totalmente novo, desenhado para exigir quantidades massivas de memória de alta velocidade. No fundo, os veículos modernos estão a transformar-se em supercomputadores sobre rodas, impulsionados por inteligência artificial.
O peso da autonomia na memória automóvel
Para contextualizar o salto tecnológico, Mehrotra detalhou que o automóvel médio actual conta com capacidades inferiores ao nível 2 de ADAS (Sistemas Avançados de Assistência ao Condutor), o que significa que integra aproximadamente 16 GB de memória DRAM.
A indústria automóvel divide a autonomia em seis níveis. O Nível 0 não tem qualquer automação, com o humano a executar todas as tarefas de condução, embora o painel possa mostrar avisos de saída de faixa. O Nível 1 adiciona assistência básica, como o controlo de cruzeiro adaptativo. Já o Nível 2 consegue combinar estas funcionalidades para controlar a direcção e a velocidade em simultâneo, tal como acontece com o Autopilot da Tesla, mas exige sempre a atenção total do condutor.
O verdadeiro salto no consumo de hardware acontece nos níveis superiores. O Nível 3 permite ao veículo gerir a maior parte da condução em condições específicas, enquanto o Nível 4 vai mais longe ao disponibilizar a capacidade de o carro conduzir sozinho em ambientes delimitados, sem qualquer intervenção humana. O Nível 5 representa a automação total em qualquer cenário.
Segundo o líder da Micron, são precisamente os veículos com autonomia de Nível 4 que vão ultrapassar a barreira dos 300 GB de RAM. Para responder a esta necessidade, a empresa já está a preparar a produção da primeira memória DRAM 1y LPDDR5 de grau automóvel da indústria. O movimento ganha força com empresas como a Nvidia a trabalhar em conjunto com fabricantes como a BYD, Geely, Isuzu e Nissan para adoptar a plataforma Drive Hyperion, desenhada para fazer chegar sistemas de Nível 4 ao mercado.
Robótica como o próximo grande motor de crescimento
Não são apenas os automóveis avançados a colocar pressão no mercado de semicondutores. A robótica está a tornar-se mais complexa e a ganhar uma adopção generalizada. Mehrotra acredita que o mundo está à beira de um vector de crescimento de vinte anos neste sector, com a expectativa de que a robótica se torne numa das maiores categorias de produtos no mundo da tecnologia.
Como os novos robôs vão ser alimentados por inteligência artificial, vão precisar de uma plataforma de processamento comparável à de um automóvel de Nível 4 topo de gama. Para executar tarefas complexas de navegação e interacção em tempo real, estas máquinas vão exigir uma capacidade de memória muito semelhante à dos veículos autónomos.
Receitas recorde e o fantasma da escassez
A perspectiva de a crise de memória piorar devido a estas tecnologias baseadas em inteligência artificial é um cenário preocupante para os consumidores tradicionais. Um exemplo claro desta pressão já se faz sentir noutros segmentos. A procura por máquinas capazes de correr modelos de inteligência artificial locais levou a uma escassez de computadores Mac de topo com 512 GB de Memória Unificada. A situação chegou ao ponto de a Apple retirar a versão de 512 GB do Mac Studio da sua loja online, ajustando os preços das versões inferiores.
No entanto, para a Micron, este é um período de enorme prosperidade financeira. A empresa gerou 23,86 mil milhões de dólares em receitas durante o seu segundo trimestre fiscal, um salto impressionante de 200% face aos 8,03 mil milhões registados no ano anterior. O lucro líquido atingiu os 13,8 mil milhões de dólares.
Para tentar equilibrar a balança entre a oferta e a procura, a Micron está a expandir a capacidade de produção com novas fábricas planeadas para o Japão, Singapura e uma megafábrica em Nova Iorque. Estes projectos devem entrar em funcionamento entre 2028 e 2029, com a marca a planear um aumento de produção de 20% já em 2026. Resta saber se este esforço será suficiente para alimentar a fome insaciável de memória dos futuros carros e robôs.