Já repararam na quantidade de anúncios de plataformas de jogo online que vêem diariamente? Podemos apostar em tudo: desde vencedores dos Óscares até ao país que o Trump quer invadir a seguir. Mas não termina aí. Tudo parece ser desenhado com a lógica de casino. E, no fim, quem ganha nunca é quem joga.
Há dias entrei numa grande superfície comercial especializada em artigos de desporto e fiquei desorientado. Os corredores já não estavam dispostos paralelamente, mas arrumados como o labirinto do ‘The Shining’. O princípio é simples: quanto mais tempo estivermos perdidos, mais hipóteses há de comprar uma tenda e um saco cama enquanto esperamos que nos resgatem. Ao procurar a saída, pensei como este tipo de design usado pelos casinos se está a espalhar a todos os cantos da nossa existência.
Senão, reparem: os casinos não têm uma saída directa para a rua. Não têm relógios, nem janelas – logo, não há luz natural – para perdermos a noção do tempo. Quando, finalmente, dei com as caixas (automáticas, tipo slot machines), pensei como o ecossistema digital é também um casino gigante.
Há estímulos cognitivos por toda a parte, em permanência. Está cheio de promessas de sucesso, quando o objectivo é que os utilizadores (a definição perfeita) joguem. E, naturalmente, que percam, com o ocasional vencedor para servir de inspiração. Os algoritmos promovem o uso contínuo, sempre com resultados tangenciais e nunca os exactos (dating apps?). Apostam na familiaridade, por isso é que seguimos “amigos” nas redes, e os influencers mostram a sua intimidade como se fossem os nossos besties.
Os conteúdos mais populares têm sempre uma carga emotiva, para nos manter ligados e reactivos. Promove-se o viés cognitivo, alimenta-se o de confirmação. E, como os verdadeiros viciados, temos uma sensação de controlo: aceitamos termos e condições, definimos privacidade e usamos nicknames, mas “eles” sabem quem somos, os nossos interesses e fraquezas. All in.
Podemos apostar em tudo. Mas, no fim, quem ganha é a casa.